28 de jan de 2018

O SERMÃO DO CENÁCULO

    (João, XIV - XVIII.)

    O Sermão do Cenáculo é tão importante, edificante e substancial quanto o Sermão do Monte.
    Este, é a entrada do Espírito na vida perfeita; aquele é a força, a esperança e a fé para prosseguirmos nessa tão gloriosa senda.
    O Sermão do Monte é a prédica pública, dirigida à multidão que, sequiosa da verdade, corria pressurosa a beber, na fonte primordial, os ensinos que lhes aclaravam o entendimento e lhes afagavam o coração oprimido.
    O Sermão do Cenáculo é o conjunto de conselhos, exortações e recomendações que Jesus dirige particularmente àqueles que, de fato, querem ser seus discípulos.
    Leiam os capítulos XIV, XV, XVI e XVII de João e verão neste discurso de Jesus, a bela insofismável, concisa e maravilhosa Doutrina Cristã que o respeitável Mestre fundou na Terra.
    O Lavapés e a Ceia não passam de símbolos, pretexto para a reunião, onde o Mestre deveria exortar, consolar e fortificar seus discípulos, para que, com fé e coragem, resistissem às provas por que iriam passar com a Tragédia do Gólgota.
    O principal de tal reunião não consiste, pois, na Ceia e no Lavapés, como julgaram as igrejas e os sacerdotes. O principal consiste nos ensinos que daí decorrem, como luzes cintilantes, através das páginas dos Evangelhos.
    Depois de haver Jesus repartido com aqueles que deveriam cuidar da sua doutrina, o pão, que para Jesus simbolizava a mesma doutrina, e o vinho que, como essência da vida, representa o Espírito que há de vivificá-la sempre; depois de, munido de uma bacia e cingido de uma toalha, lavar e enxugar os pés de todos, em sinal de humildade e pureza da alma, começa o seu memorável discurso com as doces palavras de resignação, conforto e esperança: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus? Crede também em mim; na casa de meu Pai há muitas moradas..."E prosseguindo em seus ditames garante-lhes que, nem ele, Jesus, deixaria de os assistir e proteger, como também sob a sua direção, o Pai celestial lhes enviaria o Espírito Consolador, cuja falange de mensageiros os auxiliaria na sua gloriosa tarefa.
    Jesus proporciona-lhes toda sorte de auxílio, garante-lhes todas as bem-aventuranças, diz-lhes que continuaria a viver, voltaria, se manifestaria e lhes daria assistência por todos os séculos dos séculos!
    Faz ainda mais; avisa-lhes que não se manifestaria ao mundo, porque o mundo não estava preparado para recebê-lo; os homens não tinham os "corpos lavados" quanto mais os pés para segui-lo. Garante, por fim, a seus futuros apóstolos, o amor de Deus, e acrescenta que tudo o que lhes havia dito fora com o assentimento do Pai: que a palavra não era sua, mas sim de Deus.
    Após este substancioso intróito, transfundiu em seus discípulos o espírito vivificante da fé na imortalidade e, em forma de parábola, prosseguiu em suas exortações.
    Começa o Mestre comparando-se a uma videira, e anuncia que é a "verdadeira videira" .
    A videira é composta de tronco, galhos, folhas e frutos.
    Os galhos saem do tronco e têm por fim produzir folhas e frutos.
    Assim também seus discípulos devem estar unidos a ele, como os galhos à videira, e para permanecerem na videira precisam dar frutos, como galhos que são da videira verdadeira. E faz-lhes ver que a "vara que não der frutos será cortada e lançada fora", mostrando assim a necessidade do trabalho espiritual para a frutificação da virtude. E assim como o galho, a vara recebe a seiva da videira, labora, manipula-a para que brotem frutos, - as uvas - assim também os apóstolos ou discípulos recebem o Espírito da fé do seu Mestre, para trabalharem com esse Espírito, abençoada seiva, a fim de brotarem os frutos desse labor.
    A fim de melhor frisar a necessidade do cumprimento desse dever, Jesus diz que o viticultor da videira, representado nele, é o Pai celestial, é o Criador de todas as coisas, é , finalmente, Deus.
    Com esta afirmação o Mestre quis dizer que sua obra é divina, celestial e, portanto, nenhuma potestade conseguirá destruí-la, pois o viticultor não deixará de zelar pela sua videira.
    Então o Senhor abre a seus seguidores o seu amoroso coração, embalsamado dos mais puros sentimentos e dos mais vivos afetos e lhes diz: "Assim como o Pai me amou, assim também eu vos amei; permanecei no meu amor; e se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor."
    Disse mais: que eles só seriam seus amigos se fizessem o que Ele lhes ordenara, e passou então a preveni-los do que lhes estava para acontecer: "que o mundo os aborreceria, que eles seriam perseguidos, mas não se dessem por vencidos, porque venceriam".
    Insistiu tenazmente para que todos esperassem a "vinda do Espírito da Verdade, dos Espíritos encarregados de guiar seus passos, de lhes alumiar o caminho, de lhes fortificar a fé". Disse que esses Espíritos dariam testemunho dEle, e fariam mais ainda: "convenceriam o mundo do pecado, da justiça e do juízo".
    Determinou a seus discípulos dissessem às gerações não ter Ele dito a última palavra, mas, ao contrário, haver ainda muita coisa a dizer; não o fazia porque eles não compreenderiam, mas o Espírito da Verdade ficaria encarregado dessa missão,: apóstolos invisíveis estariam sempre com aqueles que quisessem receber a sua palavra, e além de explicá-la a contento, anunciariam as coisas que teriam de acontecer.
    Finalmente, o Mestre oferece aos seus seguidores, sua palavra de despedida; demonstra a sua compaixão por todos; exorta-os novamente para que se precavenham nas tribulações; anima-os à vitória; mostra-se-lhes como vencedor e lhes anuncia a aproximação da hora em que iam ser espalhados, cada um para o seu lado.
    Conclui, afinal, a sua tocante prédica com uma prece, uma oração, um brado da alma para melhor santificar as suas palavras, para fazê-las vibrar na alma de seus discípulos, para unir aquela igreja nascente aos agentes da divina vontade; para unir aquele punhado de homens, que para o futuro seriam  baluartes da verdade; finalmente para lhes demonstrar que estava em íntima ligação com o Pai dos Espíritos e que dEle havia recebido todas as ordens.
    É de ver que Jesus, nessa mesma prece, não só orou por aqueles que consigo se achavam; mas pediu até por nós, que meditamos hoje nos seus ensinos e por todos aqueles que mais tarde receberão esses ensinos.
    Esses atos, essas palavras, esse espírito de dedicação, esse zelo sobre-humano, esse caráter edificante com que o divino Mestre ilustrou todos os momentos de sua vida, ungido sempre daquela caridade que excede a todo entendimento humano; essa prece extraordinária, admirável, em que, num colóquio de amor com o Supremo Criador, resumiu, deu conta da sua grandiosa missão e ao mesmo tempo solicitou para todos o amparo dos Céus, só podiam ser apreciados à luz do Espiritismo, porque é, na verdade, esta doutrina que estava destinada pelo próprio Jesus a transfundir na alma humana a seiva vivificante do Evangelho.
    O Sermão do Cenáculo encerra, como o do Monte, todas as condições doutrinárias, para felicitar o homem na Terra e divinizá-los nos Céus.
    Quem ouve estas palavras e põe em prática estes ensinamentos, edifica sua casa sobre rocha; e embora soprem os ventos e corram as águas, a casa permanece e o amparo dos bons Espíritos nunca falta a seus moradores.


Livro: Parábolas e Ensinos de Jesus - Cairbar Schutel

Nenhum comentário:

Postar um comentário