20 de jun de 2018

EXERCÍCIOS


Questão 450 do Livro dos Espíritos

Tudo no mundo é condicionamento da vontade da alma. Tudo obedece à boa vontade, que não deixa de ser exercício para uma determinação. O próprio saber é um exercício no aprendizado todos os dias. O que se faz em uma escola, a não ser exercitar o saber todos os dias? Eis porque chamamos de condicionamento, que não deixa de ser, igualmente, o despertamento dos valores da alma, que trazemos desde o nosso nascimento, pela vontade do Criador. A dupla vista pode ser desenvolvida pelo exercício, desde, porém, que ele obedeça a certas regras na comunhão com a vontade.
Todas as faculdades mediúnicas, para melhor se expressarem, carecem de exercício permanente. Nesse avanço, elas se vão desabrochando e subindo na escala dos dons. Podemos observar que a palavra é um dom. Se fechamos a boca por algum tempo, deixando de usar o verbo, esse poderá ir-se atrofiando, como outros músculos que garantem a existência. Assim os ouvidos, assim todos os membros do corpo. Tudo foi feito para ser usado. Se se construir uma casa, e depois de pronta, fechá-la, e se ninguém usá-la para morar, depois de certo tempo ela irá se desmoronando. Essa é uma lei do uso, que conserva tudo o que foi feito para ser usado.
O exercício é valioso em todas as circunstâncias, entrementes, necessário se faz que saibamos exercitar e, muito mais, usar aquilo que é objeto do exercício. Em tempos idos, havia escolas para desenvolvimento dos dons espirituais, para previsão de fatos, para as pitonisas e outros, como há o exercício para o político, para o direito, para a medicina e outras atividades. O terapeuta que não exercita seu aprendizado na cura, vai até se esquecendo dos valores que condicionou nas escolas.
Podemos aprender muito sobre o amor, esse é o nosso dever; no entanto, se não exercitamos esse amor todos os dias, ele vai se atrofiando a ponto de esconder-se nas dobras da consciência, e passará a dormir. O exercício dessa virtude incomparável é a garantia da fonte divina em nossos corações. Assim a caridade, assim o perdão, a paciência, de modo a abranger todas as qualidades do Espírito.
Deus nos mostra essa lei, por ser a vida movimento constante. Devemos nos movimentar a todos os momentos, em tudo o que for bom, agradável e prestativo, que desta forma aparecerá a dilatação dos poderes da alma, que acorda em todos os seus valores, e a felicidade ficará mais perto, como aquisição de quem teve boa vontade de exercitar esses dons de ouro para a paz de seu coração em Cristo.
A faculdade de dupla vista, tanto quanto as outras que conhecemos, têm relação com o organismo humano, quando estamos na carne, em raízes profundas. Certos organismos impedem a manifestação das faculdades, e essa permanece dormindo. A mente ativa tem grande influência nos centros de forças, donde vêm os estímulos para os exercícios das faculdades mencionadas.
De todo trabalho resulta o progresso: do trabalho honesto resulta a ascensão divina. Procuremos exercitar os nossos valores em aprendizado justo que o tempo dar-nos-á o resultado das nossas atenções.
Lembrando de novo a mediunidade, insistimos que é necessária essa faculdade, para que o médium seja, no amanhã, um médium de luz, por estar com o Mestre dentro do coração, a lhe dar as diretrizes que levam ao amor.

Livro: Filosofia Espírita – João Nunes Maia – Miramez - Todos os livros Espíritas como este vendidos em nossa loja terão o lucro repassado à Casa Espírita de Oração Amor e Luz.

19 de jun de 2018

AO SOL DO AMOR


Reunião pública de 7-9-59 Questão nº. 569

Brilhando por luz de Deus, ainda mesmo nas regiões em que a escuridade aparentemente domina, o amor regenera e aprimora sempre.
Podem surgir grandes malfeitores abalando a ordem pública, mas, enquanto existirem pais e mães responsáveis e devotados, o lar fulgirá no mundo, cooperando para que se dissolva a lama da delinquência na charrua do suor ou na fonte das lágrimas.
Podem surgir crianças-problemas e jovens transviados de todos os matizes, mas, enquanto existirem professores dignos do nome bendito que carregam, erguer-se-á a escola por santuário da educação.
Podem surgir doentes agoniados em todas as estâncias da vida, mas, enquanto existirem cientistas consagrados ao socorro dos semelhantes, levantar-se-á o hospital, como pouso da Bênção Divina para a redenção dos enfermos.
Podem surgir criminosos de todas as procedências, gerando reações populares pelos delitos em que estejam incursos, mas, enquanto existirem juízes compreensivos e humanos, destacar-se-á o instituto correcional por cidadela do bem, onde as vitimas da sombra retornem de novo à luz.
Podem surgir empreiteiros do ateísmo e do ódio, da intolerância e da guerra, como verdadeiros alienados mentais, mas, enquanto existirem sacerdotes e missionários da fé, com bastante abnegação para ajudar e perdoar, luzirá o templo, nas diversas confissões religiosas do mundo, como autêntica oficina de acrisolamento da alma.
É justificável, portanto, que a afeição não repouse, além da morte.
Para lá da fronteira de cinza, agiganta-se o trabalho para todos os corações acordados ao clarão do amor sem mácula.
Mães esquecidas na legenda do túmulo transformam-se em anjos invisíveis de renúncia, ao pé de filhos desmemoriados e ingratos, para que não resvalem de todo nas tenebrosidades do abismo ; esposas renascidas do nevoeiro carnal apóiam companheiros desorientados no infortúnio, para que se restaurem no tálamo doméstico ; filhos, desligados do corpo físico, tornam, despercebidos, à convivência dos pais, arrebatando-os às tentações do desânimo ou do suicídio, e arautos de idéias renovadoras sustentam-se, em espírito, ao lado daqueles que lhes continuam as obras.
Se te encontras, assim, em tarefas de sacrifício, não recalcitres contra os aguilhões que te acicatam as horas, consciente de que a matemática do destino não nos entrega problemas de que não estejamos necessitados.
Humilha-te e serve, desculpa e edifica, diante dos que se fazem complicados instrumentos de tua dor.
A prova antecipa o resgate, a luta anuncia a vitória e a dificuldade encerra a lição.
E embora se te situem as esperanças no agressivo espinheiro do sofrimento, ama os que te não compreendem e ora pelos que te injuriam, porque a Lei conhece o motivo pelo qual cada um deles te cruza os passos, e erguer-te-á o ânimo, aqui e além da Terra, para que prossigas no apostolado do amor, em perpetuidade sublime.

Livro “Religião dos Espíritos” –  Francisco C. Xavier – Emmanuel – Todos os livros Espíritas como este vendidos em nossa loja terão o lucro repassado à Casa Espírita de Oração Amor e Luz.

18 de jun de 2018

IV – REFLEXÕES SOBRE O LIVRO “LIBERTAÇÃO” – ANDRÉ LUIZ/CHICO XAVIER


Prosseguindo em nossas reflexões em torno da preleção do Ministro Flácus, inserida no primeiro capítulo de “Libertação”, atentemos para a frase:
“Entretanto, nesse mesmo espaço, alonga-se a matéria noutros estados, e, nesses outros estados, a mente desencarnada, em viagem para o conhecimento e para a virtude, radica-se na esfera física, buscando dominá-la e absorvê-la, estabelecendo gigantesca luta de pensamento (destacamos) que ao homem comum não é dado calcular”.
Vejamos:
Nem todos os que desencarnam estão preparados para se “aclimatarem” no Plano Extrafísico...
Grande número dos que deixam o corpo carnal continua a “radicarem-se” na esfera física...
Os espíritos infelizes, fora do corpo, contando com “médiuns” encarnados, em todos os setores de atividade humana – inclusive na Doutrina Espírita, que, essencialmente, é uma doutrina libertadora –, buscam “dominar” a Terra – anseiam por quererem que a Terra continue sendo o seu “pasto psíquico”, através dos vampirismos que exercem...
O Mundo Espiritual de muitos que desencarnam é tão somente a “contraparte” da Terra...
“... estabelecendo gigantesca luta de pensamento...” – são as obsessões, que Allan Kardec, ao estudá-las, segundo a sua gravidade, classificou-as: simples, fascinação e possessão...
Inegável que as trevas possuem os seus “agentes” encarnados, que, não raro, são manipulados de forma inconsciente por elas, a fim de conspurcarem as fontes mais cristalinas destinadas a saciar a sede de Conhecimento e de Amor da Humanidade...
*
Considerou Flácus:
“Frustrados em suas aspirações de vaidoso domínio no domicílio celestial (destacamos), homens e mulheres de todos os climas e de todas as civilizações, depois da morte, esbarram nessa região em que se prolongam as atividades terrenas e elegem o instinto de soberania sobre a Terra por única felicidade digna do impulso de conquistar”.
Vejamos ainda:
No Mundo Espiritual próximo, do qual muitos procedem para a Terra e para o qual, da Terra, muitos hão de regressar, apenas se prolongam as atividades terrenas...
Em geral, são esses espíritos que entram em contato com os médiuns, e, portanto, pouco eles conseguem acrescentar ao que já sabem os homens...
Não é fácil, assim, romper com esse círculo vicioso em que se transforma o ato de reencarnar... Emmanuel, no livro “Pensamento e Vida”, anotou com sabedoria no capítulo 20: “Nesse círculo vicioso, vive a criatura humana, de modo geral, sob o domínio da ignorância acalentada, procurando enganar-se depois do berço, para desenganar-se depois do túmulo, aprisionada ao binômio ilusão-desilusão, com que despende longos séculos, começando a recomeçando a senda em que lhe cabe avançar”.
Longos séculos!...
Indispensável muita coragem para romper com a hipocrisia, com a mentira, com os interesses inferiores, com o desejo de poder, com a ambição do mando, com o personalismo, enfim, com as máscaras que afivelamos à face...
A libertação é solitária...
A ascensão é penosa...
É de fazer sangrar a alma...
Lance-se a ele quem seja suficientemente ousado para encarar a verdade a respeito de si mesmo!...

INÁCIO FERREIRA – Blog Mediunidade ne Internet
Uberaba – MG, 18 de junho de 2018.

17 de jun de 2018

SOLIDÃO


Não fales que a solidão,
Fez-se-te o mal sem remédio,
Que nada te cura o tédio
Que não sabes de onde vem;

Sai de ti mesmo e olha em torno:
Verás por todos os lados,
Os irmãos infortunados
Rogando o amparo de alguém.

Livro: Agenda de Luz - Francisco C Xavier - Maria Dolores

16 de jun de 2018

HORIZONTE PERDIDO


Além da noite escura, excelsa e forte,
Esplende clara luz em novo dia,
Onde se escuta a eterna sinfonia
Da Vida triunfante sobre a morte...

Ao fim da humana estrada, outro norte,
Que quanto mais se alteia, mais se amplia,
Prossegue além, na senda que te guia
Às estrelas, em místico transporte...

Acima da montanha a que subiste,
Sozinho sob a cruz, cansado e triste,
Para lá destes báratros medonhos...

Vencida toda dor que há no mundo,
Hás de chegar, em êxtase profundo,
Ao Horizonte Perdido de teus sonhos!...

Eurícledes Formiga – Blog espiritismo em prosa e verso
(Página recebida pelo médium Carlos A. Baccelli, em reunião pública do Lar Espírita “Pedro e Paulo”, na manhã de domingo do dia 28 de julho de 1991, em Uberaba – MG).

15 de jun de 2018

SOCORRO ESPIRITUAL


Sob a influência de Clementino, que o envolvia inteiramente, Silva levantara-se e dirigia-se ao comunicante com bondade:
- Meu amigo, tenhamos calma e roguemos a amparo divino!
- Estou doente, desesperado...
- Sim, todos somos enfermos, mas não nos cabe perder a confiança. Somos filhos de Nosso Pai Celestial que é sempre pródigo de amor.
- É padre?
- Não. Sou seu irmão.
- Mentira. Nem o conheço...
- Somos uma só família, à frente de Deus.
O interlocutor conturbado riu-se irônico e acentuou:
- Deve ser algum sacerdote fanatizado para conversar nestes termos!...
A paciência do doutrinador sensibilizava-nos.
Não recebia Libório, qual se fora defrontado por um habitante das sombras, suscetível de acordar-lhe qualquer impulso de curiosidade menos digna.
Ainda mesmo descontando o valioso concurso do mentor que o acompanhava, Raul emitia de si mesmo sincera compaixão de mistura com equívoco interesse paternal. Acolhia o hóspede sem estranheza ou irritação, como se o fizesse a um familiar que regressasse demente ao santuário doméstico.
Talvez por essa razão o obsessor a seu turno se revelava menos agastadiço. Tão logo passou a entender-se, de algum modo, com o dirigente da casa, observamos que Eugênia se revigorava no esforço assistencial que lhe competia.
-Não sou um ministro religioso - continuava Raul, imperturbável -, mas desejo me aceite como seu amigo.
- Que irrisão! Não existem amigos quando a miséria está conosco ... Dos companheiros que conheci, todos me abandonaram. Resta-me apenas Sara! Sara, que não deixarei...
Fixou a expressão de quem se detinha na lembrança da pessoa a quem se referira e acrescentou com recalcada indignação:
- Ignoro por que me entravam agora os passos. É inútil. Aliás, não sei a razão pela qual me contenho. Um homem provocado, qual me vejo, decerto deveria esbofeteá-los a todos... Afinal, que fazem aqui estes cavalheiros silenciosos e estas mulheres mudas? Que pretendem de mim?
- Estamos em prece por sua paz - falou Silva, com inflexão de bondade e carinho.
- Grande novidade! Que há de comum entre nós? Devo-lhes algo?
- Pelo contrário - exclamou o interlocutor, convicto -, nós somos quem lhe deve atenção e assistência. Estamos numa instituição de serviço fraterno e é fora de dúvida que, num hospital, a ninguém será lícito inquirir da luta particular daqueles que lhe batem à porta, porque, antes de tudo, é dever da medicina e da enfermagem a prestação de socorro às feridas que sangram.
Ante o argumento enunciado com sinceridade e simpleza, o renitente sofredor pareceu apaziguar-se ainda mais. Jactos de energia mental, partidos de Silva, alcançavam-no agora em cheio, no tórax, como a lhe buscarem o coração.
Libório tentou falar, contudo, à maneira de um viajante que já não pode resistir à aridez do deserto, comoveu-se diante da ternura daquele inesperado acolhimento, a surgir-lhe por abençoada fonte de água fresca. Surpreendido, notou que a palavra lhe falecia embargada na garganta.
Sob o sábio comando de Clementino, falou o doutrinador com afetividade ardente:
- Libório, meu irmão!
Essas três palavras foram pronunciadas com tamanha inflexão de generosidade fraternal que o hóspede não pôde sopitar o pranto que lhe subia do âmago.
Raul avançou para ele, impondo-lhe as mãos, das quais jorrava luminoso fluxo magnético, e convidou:
- Vamos orar!
Findo um minuto de silêncio, a voz do diretor da casa, sob a inspiração de Clementino, suplicou enternecidamente:
- Divino Mestre, lança compassivo olhar sobre a nossa família aqui reunida...
Viajores de muitas romagens, repousamos neste instante sob a árvore bendita da prece e te imploramos amparo!
Todos somos endividados para contigo, todos nos achamos empenhados à tua bondade infinita, à maneira de servos insolventes para com o senhor.
Mas, rogando-te por nós todos, pedimos particularmente agora pelo companheiro que, decerto, encaminhas ao nosso coração, qual se fora uma ovelha que torna ao aprisco ou um irmão consanguíneo que volta ao lar...
Mestre, dá-nos a alegria de recebê-lo de braços abertos.
Sela-nos os lábios para que lhe não perguntemos de onde vem e descerra-nos a alma para a ventura de tê-lo conosco em paz.
Inspira-nos a palavra a fim de que a imprudência não se imiscua em nossa língua, aprofundando as chagas interiores do irmão, e ajuda-nos a sustentar o respeito que lhe devemos...
Senhor, estamos certos de que o acaso não te preside às determinações!
Teu amor, que nos reserva invariavelmente o melhor, cada dia, aproxima-nos uns dos outros para o trabalho justo.
Nossas almas são fios da vida em tuas mãos!
Ajusta-os para que obtenhamos do Alto o favor de servir contigo!
Nosso Libório é mais um irmão que chega de longe, de recuados horizontes do passado...
Ó senhor, auxilia-nos para que ele não nos encontre proferindo o teu nome em vão!...
O visitante chorava.
Via-se, porém, com clareza, que não eram as palavras a força que o convencia, mas sim o sentimento irradiante com que eram estruturadas.
Raul Silva, sob a destra radiosa de Clementino, afigurava-se-nos aureolado de intensa luz.
- Ó Deus, que se passa comigo?!... - conseguiu gritar Libório em lágrimas.
O irmão Clementino fez breve sinal a um dos assessores de nosso plano, que apressadamente acorreu, trazendo interessante peça que me pareceu uma tela de gaze tenuíssima, com dispositivos especiais, medindo por inteiro um metro quadrado, aproximadamente.
O mentor espiritual da reunião manobrou pequena chave num dos ângulos do aparelho e o tecido suave se cobriu de leve massa fluídica, branquicenta e vibrátil.
Em seguida postou-se novamente ao pé de Silva, que, controlado por ele, disse ao comunicante:
- Lembre-se, meu amigo, lembre-se! Faça um apelo à memória! Veja à frente os quadros que se desenrolarão aos nossos olhos!...
De imediato, como se tivesse a atenção compulsoriamente atraída para a tela, o visitante fixou-a e, desde esse momento, vimos com assombro que o retângulo sensibilizado exibia variadas cenas de que o próprio Libório era o principal protagonista. Recebendo-as mentalmente, Raul Silva passou a descrevê-las:
- Observe, meu amigo! É noite. Ouve-se um burburinho de algazarra a distância... Sua mãe velhinha chama-o à cabeceira e pede-lhe assistência... Está exausta... Você é o filho que lhe resta... Derradeira esperança de flagelada vida. Único arrimo... A pobre sente-se morrer. A dispnéia martiriza-a... É o distúrbio cardíaco pressagiando o fim do corpo... Tem medo. Declara-se receosa da solidão, de vez que é sábado carnavalesco e os vizinhos se ausentaram na direção dos centros festivos. Parece uma criança atemorizada... Contempla-o, ansiosa, e roga-lhe que fique... Você responde que sairá tão-somente por alguns minutos... o bastante para trazer-lhe a medicação necessária... Em seguida, avança, rápido, para uma gaveta situada em aposento próximo e apropria-se do único dinheiro de que a enferma dispõe, algumas centenas de cruzeiros, com que você se julga habilitado a desfrutar as falsas alegrias do seu clube... Amigos espirituais de seu lar abeiram-se de você, implorando socorro em favor da doente, quase moribunda, mas você se mostra impermeável a qualquer pensamento de compaixão... Dirige algumas palavras apressadas à enferma e sai para a rua. Em plena via pública, imanta-se aos indesejáveis companheiros desencarnados com os quais se afina... entidades turbulentas, hipnotizadas pelo vício, com as quais você se arrasta ao prazer... Por três e quatro noites consecutivos, entrega-se à loucura, com esquecimento de todas as obrigações... Somente na madrugada de quarta-feira você volta estafado e semi-inconsciente... A velhinha, socorrida por braços anônimos, não o reconhece mais... Aguarda, resignadamente, a morte, enquanto você se encaminha para um quarto dos fundos, na expectativa de conseguir um banho que o auxilie a refazer-se... Abre o gás e senta-se por alguns minutos, experimentando a cabeça entontecida... O corpo exige descanso, depois da louca folia... A fadiga surge, insopitável... Desapercebe-se de si mesmo e dorme semi-embriagado, perdendo a existência, porque as emanações tóxicas lhe cadaverizam o corpo... Na manhã clara de sol, um rabecão leva-o ao necrotério como simples suicida...
Nessa altura, o interlocutor, como se voltasse de um pesadelo, bradou desesperado:
- Oh! Esta é a verdade! A verdade!... onde está minha casa? Sara, Sara, quero minha mãe, minha mãe!...
- Acalme-se! - recomendou Raul, compadecido - nunca nos faltará o socorro divino! Seu lar, meu amigo, cerrou-se com os seus olhos de carne e sua genitora, de outras esfera, lhe estende os braços amorosos e santificantes...
O comunicante, vencido, caiu em lágrimas.
Tão grande lhe surgiu a crise emotiva que o mentor espiritual do grupo se apressou a desligá-lo do equipamento mediúnico, entregando-o aos vigilantes para que fosse convenientemente abrigado em organização próxima.
Libório, em fundo processo de transformação, afastou-se, tornando Eugênia à posição normal.
E porque a tela regressasse à transparência do início, desfechei sobre o nosso orientador algumas indagações improvisadas.
Que função desempenhava aquele retângulo que eu ainda não conhecia? Que cenas eram aquelas que se haviam desdobrado céleres sob a nossa admiração?
- Aquele aparelho - informou Áulus, gentil - é um "condensador". Tem a propriedade de concentrar em si os raios de força projetados pelos componentes da reunião, reproduzindo as imagens que fluem do pensamento da entidade comunicante, não só para a nossa observação, mas também para a análise do doutrinador, que as recebe em seu campo intuitivo, agora auxiliado pelas energias magnéticas do nosso plano.
- Evidentemente, a engrenagem de semelhante mecanismo deve ser maravilhosa! - exclamou Hilário, sob forte impressão.
- Nada de espanto - alegou o orientador -; o hóspede espiritual apenas contempla os reflexos da mente de si mesmo, à maneira de pessoa que se examina, através de um espelho.
- Mas, se estamos à frente de um condensador de forças - considerei -, precisamos concluir que o êxito do trabalho depende da colaboração de todos os componentes do grupo...
- Exato - confirmou o Assistente -, as energias ectoplásmicas são fornecidas pelo conjunto dos companheiros encarnados, em favor de irmãos que ainda se encontram semimaterializados nas faixas vibratórias da experiência física. Por isso mesmo, Silva e Clementino necessitam do concurso geral para que a máquina do serviço funcione tão harmoniosamente quanto seja possível. Pessoas que exteriorizam sentimentos menos dignos, equivalentes a princípios envenenados nascidos das viciações de variada espécie, perturbam enormemente as atividades dessa natureza, porquanto arrojam no condensador as sombras de que se fazem veículo, prejudicando a eficiência da assembléia e impedindo a visão perfeita da tela por parte da entidade necessitada de compreensão e de luz.
Levava-nos o assunto a diferentes inquirições, mas o nosso orientador lançou-nos um olhar discreto, como a pedir-nos silêncio e atenção. 

Livro: "Nos Domínios da Mediunidade"   Psicografia: Francisco C. Xavier.  Pelo espírito: André Luiz.

14 de jun de 2018

O APARECIMENTO DA SEGUNDA VISTA


Questão 449 do Livro dos Espíritos

A segunda vista aparece, nas pessoas que têm o dom, espontaneamente; ela desperta ou adormece, em uma frequência bastante acentuada, pelo fato de o dom não estar em pleno desenvolvimento espiritual. Ela obedece, certamente, à vontade, força poderosa que pode mover todas as faculdades espirituais, assim como os próprios destinos dos homens, principalmente quando essa vontade se encontra obediente às instruções do amor. É bom que se diga que a espontaneidade no afloramento dos dons vem da consciência, pois, ela é programada por Deus para nos atender nos momentos em que dela necessitamos para tais desempenhos.
A ciência vai procurar estudar o homem por dentro, visto que, por enquanto, está observando o homem por fora. As atenções se encontram voltadas para os efeitos, e não para as causas, onde se deveria empregar mais a atenção. Mas, Jesus não está aflito por isso; se Ele nos guia desde o princípio do mundo que lhe foi entregue, a razão nos diz que a Sua paciência é elástica ao infinito. Ele é Mestre e sabe ensinar aos Seus alunos com a maior precisão.
Não é somente a segunda vista que aparece no momento em que precisamos; são todos os dons que possuímos. Eles, aflorados, são manejados pelo poder interno na hora certa, mas, igualmente obedecem à vontade dos que possuem seus valores. Não obstante, a vontade nem sempre traz à tona a faculdade perfeita dos dons espirituais. Ela se amplia pela criatividade e pelo interesse próprio; os aspectos inconvenientes não enganam no surgimento espontâneo dos dons, ainda que haja uma mistura com os valores, por ser a vontade livre nos corredores da intuição espiritual.
Vejamos como deve ser educada a mediunidade, bem como, igualmente, o médium, para que a sua vontade não interfira nas suas revelações e nas suas mensagens, das quais se servem os Espíritos para esclarecimento das criaturas encarnadas.
Isso é muito sério; os canais mediúnicos devem estar livres, para não serem comparados com os canos que servem à limpeza de uma cidade, mas, sim, como condutor de água potável.
Jesus quis dar à samaritana outro tipo de água que ela não conhecia: a água que a Doutrina Espírita está vertendo dos mananciais de Jesus para a humanidade. Aproveitemos, pois, essa misericórdia, porque as oportunidades passam e haveremos de esperar até surgir outra em nossos caminhos, o que pode demorar. Se, quando o poço está pronto, a água aparece, vamos preparar esse nosso poço, para que a água de luz possa surgir no sentido de saciar nossa sede espiritual.
Que quem tiver alguns dons aflorados, procure não impor a vontade. A razão, por ser de ordem humana, é falha. Ela é cheia de conveniências pessoais. Deixemos a espontaneidade surgir pelo empuxo da consciência em Cristo, e desta maneira a verdade vai nos tornar livres das ilusões e da farsa. As faculdades espirituais que todos possuem não são máquinas humanas; elas são vidas pela força de Deus, que intercambiam nossos poderes que espiritualizam nossos sentimentos e nos fazem comungar com Cristo interno, acionando o coração em estímulos santos.
É bom que compreendamos as necessidades de andarmos com Jesus como nosso convidado especial, porque com Ele não erramos os caminhos para a libertação. Procuremos desenvolver a nossa segunda vista. Isso é muito nobre, no entanto, é de caráter divino saber o que faremos com ela ampliada. Oremos e vigiemos em todas as nossas observações e trabalhos, para não cairmos em novas tentações, no desperdício das forças que Deus nos facultou para o nosso bem e nossa felicidade.

Livro: Filosofia Espírita – João Nunes Maia – Miramez - Todos os livros Espíritas como este vendidos em nossa loja terão o lucro repassado à Casa Espírita de Oração Amor e Luz.