28.11.25

TENTAÇÕES DE CRISTO

Surgem então as três tentações principais, as mais difíceis de vencer por qualquer pessoa (o arcano 3 representa a obra completa, e dá o resumo esquemático de um todo). Com efeito, as três provas citadas englobam os três aspectos da personalidade: as sensações (etérico), as emoções (astral) e o intelecto (mental concreto).
1.º TENTAÇÃO - O egoísmo na luta da sobrevivência e do bem estar, da satisfação das necessidades básicas da criatura humana: a fome, o repouso, as ânsias fisiológicas do sexo, as angústias das sensações chamadas físicas, mas na realidade pertencentes ao duplo etérico. Então, o Espírito é instado a ceder aos desejos egoísticos dos sentidos do eu menor, dando-lhe a alimentação que o satisfaça, simbolizada no pão que mata a fome. O ato de matar a fome faz bem compreender a índole dessa tentação, muito mais vasta que a simples fome estomacal: trata-se de SACIAR os instintos inferiores do etérico que se manifesta através do corpo denso.
Além disso, outro aspecto transparece: preso no mundo material das formas, o espírito (personalidade) tenta transformar as pedras”(que exprimem os ensinamentos interpretados à letra) em pão, isto é, em alimento. Explicamos: o espírito, ao invés de adorar espiritualmente (em Espírito de verdade, Jo. 4:23 e 24) , pretere a exteriorização material da religião, que lhe possa satisfazer aos sentidos físicos, aos instintos sensoriais, emocionais e intelectuais, e por isso transforma os vãos do espírito em pães materiais, visíveis e sensíveis, chegando ao clímax de pretender transformar o próprio Deus em pão. Todo seu espiritualismo reduz-se a liturgias e ritos, a atos externos e poderes ocultos de magia, de vaidade, de vestimentas diferentes e exóticas, de tudo o que satisfaça à separação, ao luxo, à ostentação da pompa de satanás (que é exatamente a vaidade das criaturas humanas), assim, a espiritualização nesse grau visa à elevação do próprio eu pequeno, em detrimento de todos os outros eus, julgados outras pessoas. E a criatura cega transforma os preceitos evangélicos, interpretados ao pé da letra (pedras) em satisfações egolátricas de instinto que lhes saciem a fome de vaidade (pães).
O combate a essa tentação é feito pela auto-disciplina, isto é, pela disciplina que o Espírito, guiado pelo EU REAL impõe ao eu menor, fazendo-lhe ver que o Homem (integral) vive de tudo o que vem de Deus, desse Deus residente no coração do homem, e não apenas das exterioridades transitórias da personalidade efêmera.
2.ª TENTAÇÃO - A vaidade própria do eu personalístico que se julga separado, diferente, e sempre (são raríssimas as exceções!) superior a todos os demais, é outra das mais difíceis provas a ser superada pelo espírito” mergulhado na Cruz da personalidade (cruz, quatro pontas, significando o quaternário inferior). Lançar-se do pináculo do templo (emoção de grandes efeitos mágicos) na certeza de que Deus o protege em tudo, mesmo nas loucuras insensatas de pretensões vaidosas, por um privilégio a que se julga com direito. De fato, o desenvolvimento do corpo astral aguça as emoções e as hipertrofias de tal forma, que elas empanam o raciocínio equilibrado, toldam a razão, fazem perder o senso das proporções. Nas criaturas emocionalmente desequilibradas vemos a ânsia de operar milagres; a rebelião contra a autoridade da Razão superior, a pretensão egocêntrica de que ele sabe e os outros são ignorantes; a ambição de possuir poderes para comandar movimentos religiosos; o desejo de ser chefe espiritual ou religioso, nem que seja de um pugilo de criaturas que se fascinam por suas palavras, e as acompanham cegamente, tributando-lhes elogios a cada palavra que proferia, e que ele aceita, com gratidão, porque lhe acaricia a vaidade. Essa a razão de vermos, desde que a história registra os acontecimentos da sociedade humana, essa constante fragmentação religiosa, que se opera logo após o desaparecimento do Mensageiro divino que as revelou. Numerosas são as criaturas que se julgam taumaturgos, com poderes sobre os anjos e, rebelando-se contra o meio ambiente, instituem a própria seita. Daí verificarmos que esses homens não defendem idéias novas, divulgando-as em estudos e pesquisas impessoais, mas antes, querem logo iniciar grupos novos e dissidentes, dos quais passam eles ser o chefe, o cabeça. Quantas heresias se multiplicaram nos primeiros séculos do cristianismo, quantas seitas pulularam nos meios evangélicos, quantos movimentos teosóficos e rosa-cruzes que se combatem, quantos milhares de centros espíritas se fragmentam do pensamento original, criando inovações, quase nunca com sentido lógico, quase sempre sem razão de ser; mas o móvel subconsciente e o desejo de chefiar alguma coisa, de separar-se do grupo, de concorrer demonstrando gozar de proteções especiais do mundo espiritual. Não é esta uma característica apenas das criaturas encarnadas: também os desencarnados que carregam para além do túmulo, no espírito, seus defeitos personalísticos, também eles gostam muito de criar seus grupinhos, onde possam pontificar, conseguindo no mundo astral o que não conseguiram na Terra; aproveitam médiuns invigilantes, e aí temos outra facção a surgir.
E é típico exigirem separação, proibirem estudos e leituras, colocando livros no índex particular, e garantindo que a salvação (ou pelo menos especiais privilégios) só se dará dentro daquele pugilo.
Como isto se passa no mundo material, que é o mundo da divisão, é natural que arrastem após si todos os que sintonizam com o separatismo, cedendo à tentação de atirar-se do pináculo do templo da Verdade, para os labirintos barônticos do personalismo satânico.
Outro ângulo dessa tentação é a ambição de poderes mágicos, a crença de que gestos e atos físicos criem efeitos espirituais; a pretensão de dominar espíritos e elementais, sem pensar nos resultados que daí possam advir. Os poderes ocultos, que envaidecem e separam as criaturas, é aspecto importante dessa prova de fogo por que todos os que já desenvolveram o corpo emocional (astral) têm que passar.
O combate a essa tentação, isto é, a vitória sobre essa prova, esse exame - a que só é submetida certa classe de pessoas mais evoluídas que as da anterior tentação porque já desenvolveram o corpo astral - é realizada com a auto-renúncia do eu menor: não tentarás o Senhor teu Deus exprime, pois, não quererás ser superior ao teu EU REAL, não pretenderás exigir dele favores especiais nem quererás impor-te a ele. Renunciar à própria vaidade de querer ser chamado pai ou mestre (a ninguém na Terra chameis vosso pai, porque só UM é vosso Pai: aquele que está nos céus; nem queirais ser chamados mestres, porque um só é vosso mestre: o Cristo Mat. 23:9-10), esse Cristo Interno que está dentro de TODOS, e não apenas de alguns privilegiados.
Jesus deu-nos o exemplo típico dessa vitória: pregou um IDEAL, mas não chefiou nenhum movimento religioso; atendeu aos judeus, sem afastá-los de Moisés; socorreu à siro-fenícia, sem arrancá-la de seus ídolos; elogiou o centurião romano, sem exigir o seu repúdio a Júpiter; e, no exemplo da caridade perfeita, citou o samaritano, de religião diferente da Sua. E de tal forma renunciou à Sua personalidade, que o Cristo agiu plenamente através dele (Nele habitou corporalmente toda a plenitude da Divindade Col. 2:9) de tal maneira, que, durante séculos, foi Ele confundido com o próprio Deus. E isso foi conseguido com o Seu mergulho humilde nas águas da matéria, na Sua encarnação como ser humano: aniquilou-se tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens e, sendo reconhecido como homem, humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Filip. 2:7-8).
 
3.ª TENTAÇÃO - Esta é a experimentação que as criaturas encarnadas (presas à personalidade, crucificadas no quaternário inferior) têm maior dificuldade em superar. Não é mais no duplo etérico, com as sensações; nem no astral, com as emoções, mas no mais terrível de todos os adversários, maior que os prazeres (sensações), maior que a vaidade (emoções): trata-se do INTELECTO, isto é, do ORGULHO de julgar-se melhor que os outros. Daí parte a oposição máxima, não mais no mesmo plano, de ser diferente, mas num plano acima, de ser superior. Todas as criaturas se julgam ACIMA DOS OUTROS. Pode tratar-se de um ignorante: há um ponto em que não cede, há sempre um aspecto em que ninguém o iguala. Por ínfima que seja a criatura, embora reconhecendo a superioridade de outrem num ou noutro pormenor, descobre sempre algo em que ninguém lhe é superior. Daí a crítica e o julgamento que sempre todos nos acreditamos autorizados a fazer. E a ambição orgulhosa do mando ataca a todos, ao lado da ambição de posses materiais (riquezas) que lhes dê prestígio e superioridade no mundo material, para garantir-lhe a força da superioridade.
Todos querem ter mais e melhor do que o vizinho. Se o não conseguirem, não importa: são mais educados, mais generosos, mais inteligentes, mais fortes, mais saudáveis, ou gozam de amizades mais ilustres, qualquer coisa se arrumará, pela qual eles não se trocam pelo fulano... Comum é que o chefe religioso venha a ambicionar logo a seguir o domínio político, para ampliar sua ascendência sobre as massas e fazer crescer sua autoridade carismática, outorgada por Deus. Os meios para conseguí-lo não lhe ferem o escrúpulo. E uma vez guindados ao poder, não mais desejam apear. Nem sempre isso ocorrerá visando a uma nação: pode ser apenas pequeno grupo e até uma família reduzida. Isso explica o desgosto dos pais ao verem seus filhos crescerem e se independizarem. Daí a rebeldia dos filhos, em certa idade, sentindo também a tentação do mando, pretendendo derrubar os pais do pedestal em que se encontram.
Provenientes desse messianismo do poder, os ditadores, da direita, da esquerda ou do centro cercearem a liberdade dos súditos, certos de que só eles, e os que os aplaudem, são iluminados, têm sabedoria e compreensão, constituindo os outros um rebanho sem espírito. Desconhecem que cada criatura tem Deus dentro de si: para eles, Deus está só com eles, porque eles são os protegidos, colocados pela Divindade acima de todos os mortais.
Não estamos falando de alguns homens, mas de TODAS AS CRIATURAS HUMANAS. Sem exceção, somos todos experimentados nesse setor.
Para superar essa tentação há um só remédio: o auto-sacrificio, não mais adorando a personalidade (satanás), mas unicamente cultuando a Deus que está DENTRO DE NÓS, como também DENTRO DE TODAS AS CRIATURAS: moços e velhos, homens maduros e crianças, mulheres e homens, brancos e negros, ignorantes e sábios, santos e criminosos.
Quando compreendermos e sentirmos isso, sacrificaremos nosso personalismo, e ligaremos nosso espírito ao EU REAL. Colocaremos a personalidade em seu lugar, submetendo-a, como o fez Jesus: rende-te, satanás, submete-te à individualidade!
Prestar culto à personalidade (satanás) é IDOLATRIA, e praticara idolatria é, seguindo as Escrituras, pecar por adultério contra Deus. O Espírito tem que estar ligado ao EU REAL e não à personalidade; se ele se afasta do primeiro para ligar-se ao segundo, está cometendo adultério, está separando o que Deus uniu (O que Deus uniu o homem não separe, Mat. 19:6 e Mc. 10:9).
Só o sacrifício, com a submissão do eu menor, é que pode conferir a vitória sobre o orgulho da personalidade, que desejaria dominar e submeter a si a individualidade, pedindo: adore-me!
Quando, porém, o homem vence as três etapas, dominando as sensações, as emoções e o intelecto, ele vê que os anjos de Deus vêm servi-lo, e o eu menor (satanás o antagonista), se retira vencido, até o momento oportuno, porque outras provas ainda virão, todas elas ensinadas nos Evangelhos.
Livro: SABEDORIA DO EVANGELHO
CARLOS TORRES PASTORINO

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