15 de set de 2017

EXAME CRÍTICO DAS DISSERTAÇÕES DE CHARLET SOBRE OS ANIMAIS - Continuação

    NOTA GERAL

    Um ensinamento importante, do ponto de vista da ciência espírita, ressalta dessas comunicações. A primeira coisa que toca, em as lendo, é uma mistura de ideias justas, profundas, e trazendo a marca do observador, ao lado de outras evidentemente falsas, e fundadas sobre a imaginação mais que sobre a realidade. Charlet era, sem contradita, um homem acima do vulgo, mas, como Espírito, não é mais universal do que o era quando vivo, e pode se enganar porque, não sendo ainda bastante elevado, não encara as coisas  senão sob o seu ponto de vista; não há, de resto, senão os Espíritos chegados ao último grau de perfeição que estão isentos de erros; os outros por alguns dons que tenham, não sabem tudo e podem se enganar; mas, então, quando são verdadeiramente bons, fazem-no de boa fé e nisso convêm francamente, ao passo que há os que o fazem conscientemente e se obstinam nas ideias mais absurdas. Por isso, é necessário guardar-se de aceitar o que vem do mundo invisível sem tê-lo submetido ao controle da lógica; os bons Espíritos o recomendam sem cessar, e não se melindram nunca com a crítica, porque de duas coisas uma, ou estão seguros do que dizem, e então não temem, ou não estão seguros e, se tem a consciência de sua insuficiência, procuram, eles mesmos, a verdade; ora, se os homens podem se instruir com os Espíritos, certos Espíritos também podem se instruir com os homens. Os outros, ao contrário, querem dominar, esperando que aceitem as suas utopias com o favor de seu título de Espíritos; então, seja presunção de sua parte, seja má intenção, não sofrem a contradição; querem ser acreditados sob palavra, porque sabem bem que eles não podem senão perder ao exame; se desagradam com a menor dúvida sobre a sua infalibilidade, e ameaçam soberbamente de vos abandonar como indignos de ouvi-los; também não gostam senão daqueles que se põem de joelhos diante deles. Não há homens assim feitos, e deve-se espantar de encontrá-los com os seus defeitos no mundo dos Espíritos? Entre os homens, um tal caráter é sempre, aos olhos das pessoas sensatas, um indício de orgulho, de vã suficiência, de tola vaidade, e partindo da pequenez nas ideias e de um falso julgamento; o que é um sinal de inferioridade moral entre eles não poderia ser um sinal de superioridade nos Espíritos.
Charlet, como se acaba de ver, se presta de bom grado à controvérsia; escuta e admite as objeções, e responde-as com benevolência; desenvolve o que estava obscuro e reconhece lealmente o que não está exato; em uma palavra, não quer se fazer passar por mais sábio do que é, e nisto, prova mais elevação que se obstinasse nas ideias falsas, a exemplo de certos Espíritos que se escandalizam tão-só com o anúncio de que as suas comunicações parecem suscetíveis de comentários.
    O que é ainda próprio desses Espíritos orgulhosos é a espécie  de fascinação que exercem sobre seus médiuns com a ajuda da qual, algumas vezes, chegam a fazê-lo partilhar os mesmos sentimentos. Dissemos de propósito seus médiuns porque eles se apoderam deles e querem Ter, neles, os instrumentos que agem de olhos fechados; não se acomodariam de nenhum modo com um médium escutador ou que visse muito claro; não é assim ainda entre os homens? Quando o encontraram, temem que se lhe escape, inspiram-lhe o afastamento de quem poderia esclarecê-lo; isolam-no de alguma sorte, a fim de que gozem de inteira liberdade, ou não o aproximam senão daqueles  dos quais nada tem a temer; e, para melhor captar a sua confiança, se fazem bons apóstolos usurpando os nomes de Espíritos venerados, dos quais procuram imitar a linguagem; mas agem inutilmente, a ignorância nunca poderá arremedar o verdadeiro saber, nem uma natureza má a verdadeira virtude; sempre o orgulho surgirá sob o manto de uma fingida humildade, e é porque temem ser desmascarados que evitam a discussão e dela desviam os seus médiuns.
    Não há pessoa, julgando friamente e sem prevenção, que não reconheça como má uma tal influência, porque cai sob o mais vulgar bom senso que um Espírito, verdadeiramente bom e esclarecido, não procuraria nunca exercê-la. Pode-se, pois, dizer que todo médium que lhes cede está sob o império de uma obsessão, da qual deve procurar se desembaraçar o mais cedo. O que se quer, antes de tudo, não são quando mesmo comunicações, mas comunicações boas e verdadeiras; ora, para Ter boas comunicações são necessários bons Espíritos, e para Ter bons Espíritos é necessário Ter médiuns livres de toda má influência. A natureza dos Espíritos que assistem habitualmente um médium é, pois, uma das primeiras coisas a considerar; para conhecê-la, exatamente, há um critério infalível, e isso não está nem nos sinais materiais nem nas fórmulas de evocação ou de conjuração que são encontradas; esse critério está  nos sentimentos que o Espírito inspira ao médium; pela maneira de agir deste último, pode-se julgar da natureza dos Espíritos que o dirigem e, por conseguinte, do grau de confiança que as suas comunicações merecem.

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