17.6.26

EU SÓ

Caetano PERO NETO (*)

23   Eu só e o surdo mundo...
O leito me veste em branco.
As cadeiras repousam em branco.
As paredes estão levantadas em branco,
Sustentando o teto parado, em branco.
As janelas talhadas em branco
Deixam passar o vento gárrulo e brincalhão,
Que desliza sem cor.
As cortinas, parecendo longas mãos brancas,
Engastadas nos braços rijos da porta,
Acenam adeus, em branco.
 
34   Eu só e o surdo mundo...
Quero fitar os rostos que me cercam,
Mas vejo apenas semblantes graves,
Semelhantes a camafeus de cobre em placas de alumínio.
Quero gritar o terror do desconhecido,
Mas a boca foi trancada pelas chaves da névoa muito branca
Que me envolve de todo...
Falam somente em mim as grossas gotas brancas
Que me rolam da face.
 
Eu mudo e o surdo mundo...
Depois de muitas horas de expectativa em branco,
45   na vazante branca em que ainda respiro,
surge a enchente das sombras.
Tudo crepeia em torno...
 
Céus! Não sou Deus
Que traduz a noite em poema de estrelas,
Nem pirilampo humilde que acende a lanterninha lucilante...
 
Eu cego e o surdo mundo...
52   Levanto-me, tateio, choro, clamo, esmagado pelas mós invisíveis   da escuridão,
Por muito tempo...
 
De improviso, porém, nova luz rasga as trevas, e os fotônios,
Que me atingem as pupilas cansadas, dizem-me sem palavras
Para que me aquiete, anunciando, por fim
Que Deus é meu pai
E que a Vida é minha mãe,
Guardando-me nos braços, para sempre, para sempre!
 
 
23-24.  Observem-se, versos mais abaixo, as variantes do ante canto – “Eu só e o surdo mundo”.
45.       Digno de nota o gosto obsessivo do poeta pelo vocábulo “branco”, chegando a praticar, quase, a batologia.
52.      Atente-se na dinamização expressiva dada pelo assíndeto.
 
(*)   Contista, romancista, e poeta do grupo dos <<novíssimos>>,, cursava o 5º ano da Faculdade de Direito de S. Paulo, quando desencarnou. Nos últimos tempos de ginásio, colaborava com jornais de Itápolis. Depois encetou a publicação de poesias e contos nos periódicos Álvares de Azevedo, Tribuna Liberal, XI de Agosto, etc. Orador oficial da Associação Acadêmica <<Álvares de Azevedo>>, aos 19 anos já <<era o representante intelectual do corpo discente da Faculdade>> (apud Xangô e ..., pág. 12). Em 1936, foi eleito presidente da referida Associação Acadêmica. Redigiu, com Osmar Pimentel e Mário da Silva Brito, a folha universitária Anhanguerra. Participou do movimento intelectual da <<Bandeira>>,chefiado por Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia. Membro da Academia de Letras da Faculdade.Ulisses Guimarães (apud Dic. Aut. Paul., pág. 469) disse que ele <<foi um lírico, como tal eminentemente subjetivo>>. <<Seus poemas,>> - escreveu Dulce Salles Cunha ( Auut. Contemp. Brasileiros, pág.229) - <<em geral muito pessoais, são quase todos isentos de senões,>> (Itajobi, Est.S.Paulo, 21 de agosto de 1916 –S.Paulo, Est.de S. Paulo, 23 de Dezembro de 1937.)
BIBLIOGRAFIA: Xangô e Outros Poemas, obra póstuma.
Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

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