18.5.26
O Choque Geracional nos Ambientes Espíritas
Um filme que utilizei bastante como exemplo de mudança organizacional nas minhas capacitações para gestores e lideranças foi “Mudança de Hábito”, 1992.
A cena em que os jovens da vizinhança entram na igreja de St. Katherine é o grande ponto de virada do filme. Ela simboliza a quebra da barreira entre a instituição religiosa rígida e a comunidade vibrante, mas negligenciada ao redor.
Antes da chegada de Deloris Van Cartier (Whoopi Goldberg), a paróquia de St. Katherine era um lugar sombrio, vazio e desconectado da realidade brutal das ruas de São Francisco.
A Madre Superiora acreditava que a igreja deveria ser um refúgio de silêncio e tradição, mas isso só afastava as pessoas. O coral das freiras era, honestamente, terrível — desafinado e sem vida.
Quando Deloris assume a regência do coral e decide que, para atrair as pessoas, a música precisa ter alma e ritmo. Ela começa a infundir clássicos religiosos com a energia do Motown e do Soul.
Enquanto as freiras ensaiam e se apresentam com uma nova roupagem, as portas da igreja, que antes ficavam fechadas, são abertas.
Na rua, os jovens que costumam passar o tempo jogando basquete ou apenas vagando pelo bairro param o que estão fazendo. Eles ouvem um som que não reconhecem como "música de igreja": é rítmico, animado e contagiante.
Atraídos pela batida de músicas eles se aproximam timidamente da entrada. A expressão no rosto deles é de choque ao verem as freiras dançando e cantando com energia.
Aos poucos, eles começam a preencher os bancos do fundo. O que era um deserto de bancos vazios começa a se transformar em um espaço multicultural e multigeracional.
A cena atinge seu ápice quando o coral transita de um canto gregoriano tradicional para um arranjo explosivo de música pop adaptada.
Eles não apenas assistem; eles começam a bater palmas e a se mover no ritmo da música. A igreja deixa de ser um museu de silêncio para se tornar o centro da comunidade.
Essa cena é fundamental porque prova o ponto de Deloris: para salvar a paróquia, que corria o risco de ser fechada pelo Bispo por falta de fundos e fiéis, era preciso falar a língua do povo.
É nesse momento que a Madre Superiora percebe que, embora os métodos de Deloris sejam heterodoxos, eles trouxeram de volta a vida e a esperança para St. Katherine.
O que a descrição desta cena tem a ver com o atual momento do movimento espírita brasileiro, de maneira geral, e especialmente com relação à presença dos jovens nas casas espíritas?
Creio que o Movimento Espírita se encontra em uma encruzilhada histórica. Se, por um lado, a base doutrinária sistematizada por Allan Kardec no século XIX mantém-se atual em sua essência filosófica e científica, por outro, as estruturas organizacionais das casas espíritas enfrentam o desafio de dialogar com as gerações Z e Alpha.
As gerações atuais são marcadas pela hiperconectividade e pelo acesso instantâneo à informação. A Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e a Geração Alpha (pós-2010) possuem um perfil pragmático e um forte senso de justiça social.
Para esses jovens, o conhecimento não é algo a ser recebido passivamente de uma autoridade, mas construído coletivamente. Eles valorizam a transparência, a diversidade e a aplicabilidade prática dos conceitos aprendidos, rejeitando formalismos vazios ou dogmatismos velados – sim, apesar de não caber, o Espiritismo está cheio de dogmatismos.
Tradicionalmente, muitas casas espíritas operam sob um modelo hierárquico herdado das gerações Baby Boomer e X. Este modelo prioriza a palestra expositiva, onde o público assume um papel passivo, e cursos com currículos rígidos e lineares.
O funcionamento das novas mentes, no entanto, é em rede, não linear. Enquanto o centro busca a preservação de tradições e rituais de convivência, os jovens buscam agilidade, diálogo e uma linguagem que reflita os dilemas contemporâneos, como saúde mental, sustentabilidade e identidade.
A maior convergência entre a doutrina e as novas gerações reside na "fé raciocinada". O convite kardequiano ao questionamento e à análise científica atrai naturalmente o jovem que desconfia de dogmas – verdades absolutas, inquestionáveis, intocáveis.
Além disso, o foco na caridade e no auxílio ao próximo ressoa com o desejo de impacto social positivo dessas gerações. Eles, entretanto, querem mais. Desejam transformar o status quo. Querem implantar projetos sustentáveis de promoção social, de libertação do assistencialismo.
As divergências também surgem na forma do aprendizado espírita: a linguagem rebuscada, a resistência ao uso de tecnologias durante os estudos e o conservadorismo moral em temas sociais urgentes criam uma barreira que impede o sentimento de pertencimento.
Para acolher as novas gerações, o movimento espírita precisa transitar do modelo de transmissão bancária do conhecimento (vide Paulo Freire) para o modelo de participação. Isso implica a adoção de metodologias ativas, onde o estudo se dê por meio de debates, oficinas e produção de conteúdo digital.
É necessário que a casa espírita se torne um "espaço seguro" para o diálogo sobre questões da atualidade, sem julgamentos moralistas, mas com base na ética do Evangelho.
A digitalização do acolhimento e a inclusão do jovem nos processos de tomada de decisão das instituições são passos fundamentais para garantir a continuidade da mensagem espírita no futuro.
Se sempre ocorreu hiatos no choque de gerações em qualquer campo do saber, no desdobrar das épocas, o choque geracional em curso é mais profundo e radical.
Nunca as novas gerações estiveram tão sedentas de espiritualidade, sobretudo para fomentar as transformações que imagina introduzir na sociedade, mas o modelo clerical catolicista que foi adotado nos ambientes espiritistas impede a eclosão destas mudanças.
Quando será que abandonaremos os nossos mesmismos e adotaremos a nossa mudança de hábito?
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Brasília: FEB, 2013.
LIMA, Marcus Vinicius de. Espiritismo e Juventude: diálogos necessários. Rio de Janeiro: CELD, 2018.
PRENSKY, Marc. Nativos Digitais, Imigrantes Digitais. On the Horizon, MCB University Press, v. 9, n. 5, out.
TEIXEIRA, Raul. Desafios da Educação. Pelo Espírito Camilo. Niterói: 2001. Frázio, 2005.
A cena em que os jovens da vizinhança entram na igreja de St. Katherine é o grande ponto de virada do filme. Ela simboliza a quebra da barreira entre a instituição religiosa rígida e a comunidade vibrante, mas negligenciada ao redor.
Antes da chegada de Deloris Van Cartier (Whoopi Goldberg), a paróquia de St. Katherine era um lugar sombrio, vazio e desconectado da realidade brutal das ruas de São Francisco.
A Madre Superiora acreditava que a igreja deveria ser um refúgio de silêncio e tradição, mas isso só afastava as pessoas. O coral das freiras era, honestamente, terrível — desafinado e sem vida.
Quando Deloris assume a regência do coral e decide que, para atrair as pessoas, a música precisa ter alma e ritmo. Ela começa a infundir clássicos religiosos com a energia do Motown e do Soul.
Enquanto as freiras ensaiam e se apresentam com uma nova roupagem, as portas da igreja, que antes ficavam fechadas, são abertas.
Na rua, os jovens que costumam passar o tempo jogando basquete ou apenas vagando pelo bairro param o que estão fazendo. Eles ouvem um som que não reconhecem como "música de igreja": é rítmico, animado e contagiante.
Atraídos pela batida de músicas eles se aproximam timidamente da entrada. A expressão no rosto deles é de choque ao verem as freiras dançando e cantando com energia.
Aos poucos, eles começam a preencher os bancos do fundo. O que era um deserto de bancos vazios começa a se transformar em um espaço multicultural e multigeracional.
A cena atinge seu ápice quando o coral transita de um canto gregoriano tradicional para um arranjo explosivo de música pop adaptada.
Eles não apenas assistem; eles começam a bater palmas e a se mover no ritmo da música. A igreja deixa de ser um museu de silêncio para se tornar o centro da comunidade.
Essa cena é fundamental porque prova o ponto de Deloris: para salvar a paróquia, que corria o risco de ser fechada pelo Bispo por falta de fundos e fiéis, era preciso falar a língua do povo.
É nesse momento que a Madre Superiora percebe que, embora os métodos de Deloris sejam heterodoxos, eles trouxeram de volta a vida e a esperança para St. Katherine.
O que a descrição desta cena tem a ver com o atual momento do movimento espírita brasileiro, de maneira geral, e especialmente com relação à presença dos jovens nas casas espíritas?
Creio que o Movimento Espírita se encontra em uma encruzilhada histórica. Se, por um lado, a base doutrinária sistematizada por Allan Kardec no século XIX mantém-se atual em sua essência filosófica e científica, por outro, as estruturas organizacionais das casas espíritas enfrentam o desafio de dialogar com as gerações Z e Alpha.
As gerações atuais são marcadas pela hiperconectividade e pelo acesso instantâneo à informação. A Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e a Geração Alpha (pós-2010) possuem um perfil pragmático e um forte senso de justiça social.
Para esses jovens, o conhecimento não é algo a ser recebido passivamente de uma autoridade, mas construído coletivamente. Eles valorizam a transparência, a diversidade e a aplicabilidade prática dos conceitos aprendidos, rejeitando formalismos vazios ou dogmatismos velados – sim, apesar de não caber, o Espiritismo está cheio de dogmatismos.
Tradicionalmente, muitas casas espíritas operam sob um modelo hierárquico herdado das gerações Baby Boomer e X. Este modelo prioriza a palestra expositiva, onde o público assume um papel passivo, e cursos com currículos rígidos e lineares.
O funcionamento das novas mentes, no entanto, é em rede, não linear. Enquanto o centro busca a preservação de tradições e rituais de convivência, os jovens buscam agilidade, diálogo e uma linguagem que reflita os dilemas contemporâneos, como saúde mental, sustentabilidade e identidade.
A maior convergência entre a doutrina e as novas gerações reside na "fé raciocinada". O convite kardequiano ao questionamento e à análise científica atrai naturalmente o jovem que desconfia de dogmas – verdades absolutas, inquestionáveis, intocáveis.
Além disso, o foco na caridade e no auxílio ao próximo ressoa com o desejo de impacto social positivo dessas gerações. Eles, entretanto, querem mais. Desejam transformar o status quo. Querem implantar projetos sustentáveis de promoção social, de libertação do assistencialismo.
As divergências também surgem na forma do aprendizado espírita: a linguagem rebuscada, a resistência ao uso de tecnologias durante os estudos e o conservadorismo moral em temas sociais urgentes criam uma barreira que impede o sentimento de pertencimento.
Para acolher as novas gerações, o movimento espírita precisa transitar do modelo de transmissão bancária do conhecimento (vide Paulo Freire) para o modelo de participação. Isso implica a adoção de metodologias ativas, onde o estudo se dê por meio de debates, oficinas e produção de conteúdo digital.
É necessário que a casa espírita se torne um "espaço seguro" para o diálogo sobre questões da atualidade, sem julgamentos moralistas, mas com base na ética do Evangelho.
A digitalização do acolhimento e a inclusão do jovem nos processos de tomada de decisão das instituições são passos fundamentais para garantir a continuidade da mensagem espírita no futuro.
Se sempre ocorreu hiatos no choque de gerações em qualquer campo do saber, no desdobrar das épocas, o choque geracional em curso é mais profundo e radical.
Nunca as novas gerações estiveram tão sedentas de espiritualidade, sobretudo para fomentar as transformações que imagina introduzir na sociedade, mas o modelo clerical catolicista que foi adotado nos ambientes espiritistas impede a eclosão destas mudanças.
Quando será que abandonaremos os nossos mesmismos e adotaremos a nossa mudança de hábito?
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Brasília: FEB, 2013.
LIMA, Marcus Vinicius de. Espiritismo e Juventude: diálogos necessários. Rio de Janeiro: CELD, 2018.
PRENSKY, Marc. Nativos Digitais, Imigrantes Digitais. On the Horizon, MCB University Press, v. 9, n. 5, out.
TEIXEIRA, Raul. Desafios da Educação. Pelo Espírito Camilo. Niterói: 2001. Frázio, 2005.
16.5.26
Psicologia Transpessoal: Dois Passos a Mais
A trajetória da psicologia como ciência sempre foi marcada por uma busca incessante pela compreensão da psique humana. Foi apenas na segunda metade do século XX, contudo, que a disciplina se permitiu atravessar o portal do ego para explorar o que há de mais profundo e transcendente no ser.
Até a década de 1960, o cenário psicológico era dominado por três grandes correntes: (1) o Behaviorismo, focado no comportamento observável; (2) a Psicanálise, focada no inconsciente biográfico; e o (3) Humanismo, focado na autorrealização.
Embora revolucionárias, muitos teóricos sentiam que faltava algo essencial: a dimensão espiritual e os estados não ordinários de consciência.
Em 1967, nomes como Abraham Maslow, Anthony Sutich e Stanislav Grof fundaram a Psicologia Transpessoal.
Ela surgiu como a "Quarta Força", propondo que o ser humano não é apenas um conjunto de reflexos ou traumas infantis, mas um ser dotado de uma centelha transcendente.
Seu foco principal esteve no estudo de experiências de pico, estados místicos, intuição e a conexão com o sagrado. Trouxe uma mudança de paradigma: o ego deixa de ser o fim último da terapia para se tornar um veículo da consciência expandida.
Apesar dos avanços da Psicologia Transpessoal acadêmica, existe uma lacuna entre a teoria e a prática da autotransformação profunda.
É neste ponto que o estudo das obras de Joanna de Ângelis e dos conteúdos recebidos por Eva Pierrakos se tornam não apenas útil, mas necessário para uma psicologia integral.
A mentora espiritual, através da psicografia de Divaldo Pereira Franco, construiu uma obra monumental que faz a ponte perfeita entre a doutrina espírita e a psicologia profunda, especialmente a Junguiana.
Joanna de Ângelis oferece uma compreensão do "Ser Imortal". Ela detalha como as sombras e os complexos não são apenas desta vida, mas heranças de um passado reencarnacionista.
Sua abordagem foca na autocura através do autoconhecimento e da aplicação das leis de amor, trazendo uma ética transcendente que a psicologia acadêmica muitas vezes evita.
Já o Pathwork (Trabalho do Caminho) é um corpo de 258 palestras canalizadas por Eva Pierrakos que foca no desvendamento do Eu Sombrio para a liberação do Eu Superior.
O Pathwork é prático e absolutamente honesto sobre a negatividade humana.
Enquanto muitas correntes transpessoais podem não se aprofundar no uso da espiritualidade para evitar traumas reais, o Pathwork exige que o indivíduo encare sua máscara e sua maldade interna para que a luz verdadeira possa emergir.
A incorporação desses conteúdos pela psicologia transpessoal, em especial, permitiria uma visão do homem que é, ao mesmo tempo, científica e transcendente.
Primeiramente, porque Joanna de Ângelis fornece o mapa da imortalidade e da evolução do ser através dos tempos.
Depois porque Eva Pierrakos, canalizando os ensinamentos do “Guia”, fornece as ferramentas de mineração psicológica para limpar o terreno da personalidade.
Estudar essas fontes é reconhecer que a saúde mental não é apenas a ausência de sintomas, mas o alinhamento pleno da criatura com o seu Criador e com o seu propósito cósmico.
A Psicologia Transpessoal deve dar estes passos a mais – e como qualquer disciplina que se pretenda científica – permitir-se investigar e incorporar conteúdos que são provindos da dimensão espiritual, base de inspiração da transpessoalidade.
Um cenário, no entanto, é certo: a psicologia do futuro será, inevitavelmente, uma psicologia da alma.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Pós-Graduado em Psicologia Transpessoal pela Faculdade de São Marcos – MG.
Referências Bibliográficas
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Autodescobrimento: uma busca interior. 1. ed. Salvador: LEAL, 1995. (Série Psicológica, v. 2).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O Despertar do Espírito. 1. ed. Salvador: LEAL, 2000. (Série Psicológica, v. 7).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O Ser Consciente. 1. ed. Salvador: LEAL, 1993. (Série Psicológica, v. 1).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Triunfo Pessoal. 1. ed. Salvador: LEAL, 2002. (Série Psicológica, v. 9).
GROF, Stanislav. Além do Cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia. Rio de Janeiro: Welt, 1987.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2011.
MASLOW, Abraham H. Introdução à Psicologia do Ser. 2. ed. Rio de Janeiro: Eldorado, 1972.
PIERRAKOS, Eva. O Caminho da Autotransformação. Tradução de Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Cultrix, 1992.
PIERRAKOS, Eva. Não Temas o Mal: o método do Pathwork para transformar o eu inferior e encontrar a aceitação de si mesmo. São Paulo: Cultrix, 1996.
PIERRAKOS, Eva; THESENGA, Donovan. Criando União: o método do Pathwork para relacionamentos. São Paulo: Cultrix, 1995.
SALDANHA, Vera. A Psicologia Transpessoal: abordagem integrada de saúde e educação. Ijuí: Unijuí, 2008.
SUTICH, Anthony. The emergence of the Transpersonal Orientation: a personal note. Journal of Transpersonal Psychology, v. 1, n. 1, 1969.
Até a década de 1960, o cenário psicológico era dominado por três grandes correntes: (1) o Behaviorismo, focado no comportamento observável; (2) a Psicanálise, focada no inconsciente biográfico; e o (3) Humanismo, focado na autorrealização.
Embora revolucionárias, muitos teóricos sentiam que faltava algo essencial: a dimensão espiritual e os estados não ordinários de consciência.
Em 1967, nomes como Abraham Maslow, Anthony Sutich e Stanislav Grof fundaram a Psicologia Transpessoal.
Ela surgiu como a "Quarta Força", propondo que o ser humano não é apenas um conjunto de reflexos ou traumas infantis, mas um ser dotado de uma centelha transcendente.
Seu foco principal esteve no estudo de experiências de pico, estados místicos, intuição e a conexão com o sagrado. Trouxe uma mudança de paradigma: o ego deixa de ser o fim último da terapia para se tornar um veículo da consciência expandida.
Apesar dos avanços da Psicologia Transpessoal acadêmica, existe uma lacuna entre a teoria e a prática da autotransformação profunda.
É neste ponto que o estudo das obras de Joanna de Ângelis e dos conteúdos recebidos por Eva Pierrakos se tornam não apenas útil, mas necessário para uma psicologia integral.
A mentora espiritual, através da psicografia de Divaldo Pereira Franco, construiu uma obra monumental que faz a ponte perfeita entre a doutrina espírita e a psicologia profunda, especialmente a Junguiana.
Joanna de Ângelis oferece uma compreensão do "Ser Imortal". Ela detalha como as sombras e os complexos não são apenas desta vida, mas heranças de um passado reencarnacionista.
Sua abordagem foca na autocura através do autoconhecimento e da aplicação das leis de amor, trazendo uma ética transcendente que a psicologia acadêmica muitas vezes evita.
Já o Pathwork (Trabalho do Caminho) é um corpo de 258 palestras canalizadas por Eva Pierrakos que foca no desvendamento do Eu Sombrio para a liberação do Eu Superior.
O Pathwork é prático e absolutamente honesto sobre a negatividade humana.
Enquanto muitas correntes transpessoais podem não se aprofundar no uso da espiritualidade para evitar traumas reais, o Pathwork exige que o indivíduo encare sua máscara e sua maldade interna para que a luz verdadeira possa emergir.
A incorporação desses conteúdos pela psicologia transpessoal, em especial, permitiria uma visão do homem que é, ao mesmo tempo, científica e transcendente.
Primeiramente, porque Joanna de Ângelis fornece o mapa da imortalidade e da evolução do ser através dos tempos.
Depois porque Eva Pierrakos, canalizando os ensinamentos do “Guia”, fornece as ferramentas de mineração psicológica para limpar o terreno da personalidade.
Estudar essas fontes é reconhecer que a saúde mental não é apenas a ausência de sintomas, mas o alinhamento pleno da criatura com o seu Criador e com o seu propósito cósmico.
A Psicologia Transpessoal deve dar estes passos a mais – e como qualquer disciplina que se pretenda científica – permitir-se investigar e incorporar conteúdos que são provindos da dimensão espiritual, base de inspiração da transpessoalidade.
Um cenário, no entanto, é certo: a psicologia do futuro será, inevitavelmente, uma psicologia da alma.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Pós-Graduado em Psicologia Transpessoal pela Faculdade de São Marcos – MG.
Referências Bibliográficas
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Autodescobrimento: uma busca interior. 1. ed. Salvador: LEAL, 1995. (Série Psicológica, v. 2).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O Despertar do Espírito. 1. ed. Salvador: LEAL, 2000. (Série Psicológica, v. 7).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O Ser Consciente. 1. ed. Salvador: LEAL, 1993. (Série Psicológica, v. 1).
FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Triunfo Pessoal. 1. ed. Salvador: LEAL, 2002. (Série Psicológica, v. 9).
GROF, Stanislav. Além do Cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia. Rio de Janeiro: Welt, 1987.
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2011.
MASLOW, Abraham H. Introdução à Psicologia do Ser. 2. ed. Rio de Janeiro: Eldorado, 1972.
PIERRAKOS, Eva. O Caminho da Autotransformação. Tradução de Gilson César Cardoso de Sousa. São Paulo: Cultrix, 1992.
PIERRAKOS, Eva. Não Temas o Mal: o método do Pathwork para transformar o eu inferior e encontrar a aceitação de si mesmo. São Paulo: Cultrix, 1996.
PIERRAKOS, Eva; THESENGA, Donovan. Criando União: o método do Pathwork para relacionamentos. São Paulo: Cultrix, 1995.
SALDANHA, Vera. A Psicologia Transpessoal: abordagem integrada de saúde e educação. Ijuí: Unijuí, 2008.
SUTICH, Anthony. The emergence of the Transpersonal Orientation: a personal note. Journal of Transpersonal Psychology, v. 1, n. 1, 1969.
15.5.26
Comentário Questão 812 do Livro dos Espíritos
O BEM-ESTAR
O bem-estar é relativo entre os homens e mesmo entre os Espíritos desencarnados. Acontece conforme a evolução de cada um. Os Espíritos, tanto os encarnados quanto os desencarnados, apresentam aptidões diferentes de uns para com os outros. Cada criatura tem uma idade sideral e já tem dons despertados que outros não têm.
O bem-estar está sendo dirigido pelas mesmas leis que regem a igualdade: cada criatura sente esse bem-estar de acordo com a escala a que pertence no progresso espiritual. O entendimento dos homens, de uns para com os outros, depende do progresso das criaturas. Sem maturidade espiritual, não pode existir união, que somente o amor pode fazer.
O homem mais ou menos primitivo é impedido de conhecer as leis, portanto, ele desconhece os métodos de adquirir o seu bem-estar. É falta de maturidade. O homem ignorante é dado ao egoísmo, querendo o bem-estar somente para si. Ele parece se esquecer dos seus semelhantes e não se incomoda com os sofrimentos do próximo.
Consultemos Lucas, no capítulo vinte e quatro, versículo dezesseis, quando ele se refere ao impedimento de ver:
Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer.
A ignorância, por imaturidade pessoal, impede, não somente os olhos, mas todos os sentidos de manifestar a verdade, por desconhecê-la. Quem não ama e não é afeito à justiça, dificulta todos os meios de perceber a realidade. Se se juntam muitos deles, para trocar ideias, dar e receber orientações, são cegos guiando cegos, e todos caem no despenhadeiro do erro.
As leis que regem todas as pessoas, quando são conhecidas e obedecidas pelos Espíritos, começam a tornar visível nos corações o bem-estar, pela serenidade da consciência.
Deus nos criou para a felicidade e age para que possamos entender Sua vontade e conhecermos a nós mesmos.
Se queremos aumentar o nosso bem-estar, na faixa de vida que levamos, não esqueçamos a prática da caridade, que ela, bem conduzida, nos levará às portas da verdadeira felicidade. O Espiritismo mostra normas elevadas capazes de nos conduzirem para grandes entendimentos, por nos fazerem conhecer a nós mesmos e combater as nossas próprias inferioridades.
"O Livro dos Espíritos" constitui a força basilar da Doutrina dos Espíritos, modulando nossas energias e irradiando nossas forças de amor, se a temos, para os que sofrem e são perseguidos.
Todos queremos o bem-estar, mas ele custa o preço do esforço próprio. Deus tudo fez e colocou à disposição de quem ama mais. Trabalhemos buscando o bem-estar de todos, que todo trabalhador é digno do seu salário, e o salário da alma que entendeu e pratica a caridade é o bem-estar espiritual permanente no coração, que verte da consciência.
Livro Filosofia Espírita - João Nunes Maia - Miramez
O bem-estar é relativo entre os homens e mesmo entre os Espíritos desencarnados. Acontece conforme a evolução de cada um. Os Espíritos, tanto os encarnados quanto os desencarnados, apresentam aptidões diferentes de uns para com os outros. Cada criatura tem uma idade sideral e já tem dons despertados que outros não têm.
O bem-estar está sendo dirigido pelas mesmas leis que regem a igualdade: cada criatura sente esse bem-estar de acordo com a escala a que pertence no progresso espiritual. O entendimento dos homens, de uns para com os outros, depende do progresso das criaturas. Sem maturidade espiritual, não pode existir união, que somente o amor pode fazer.
O homem mais ou menos primitivo é impedido de conhecer as leis, portanto, ele desconhece os métodos de adquirir o seu bem-estar. É falta de maturidade. O homem ignorante é dado ao egoísmo, querendo o bem-estar somente para si. Ele parece se esquecer dos seus semelhantes e não se incomoda com os sofrimentos do próximo.
Consultemos Lucas, no capítulo vinte e quatro, versículo dezesseis, quando ele se refere ao impedimento de ver:
Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer.
A ignorância, por imaturidade pessoal, impede, não somente os olhos, mas todos os sentidos de manifestar a verdade, por desconhecê-la. Quem não ama e não é afeito à justiça, dificulta todos os meios de perceber a realidade. Se se juntam muitos deles, para trocar ideias, dar e receber orientações, são cegos guiando cegos, e todos caem no despenhadeiro do erro.
As leis que regem todas as pessoas, quando são conhecidas e obedecidas pelos Espíritos, começam a tornar visível nos corações o bem-estar, pela serenidade da consciência.
Deus nos criou para a felicidade e age para que possamos entender Sua vontade e conhecermos a nós mesmos.
Se queremos aumentar o nosso bem-estar, na faixa de vida que levamos, não esqueçamos a prática da caridade, que ela, bem conduzida, nos levará às portas da verdadeira felicidade. O Espiritismo mostra normas elevadas capazes de nos conduzirem para grandes entendimentos, por nos fazerem conhecer a nós mesmos e combater as nossas próprias inferioridades.
"O Livro dos Espíritos" constitui a força basilar da Doutrina dos Espíritos, modulando nossas energias e irradiando nossas forças de amor, se a temos, para os que sofrem e são perseguidos.
Todos queremos o bem-estar, mas ele custa o preço do esforço próprio. Deus tudo fez e colocou à disposição de quem ama mais. Trabalhemos buscando o bem-estar de todos, que todo trabalhador é digno do seu salário, e o salário da alma que entendeu e pratica a caridade é o bem-estar espiritual permanente no coração, que verte da consciência.
Livro Filosofia Espírita - João Nunes Maia - Miramez
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