25.2.26
A Catolicidade dos Espíritas
Na França, essa eclosão de fenômenos encontrou em Allan Kardec a competência necessária para transformar o caos de informações dispersas em um corpo doutrinário coeso.
Allan Kardec não apenas catalogou comunicações; ele sistematizou uma tríade que propunha, simultaneamente, uma ciência de observação e uma filosofia com profundas consequências ético-morais e religiosas.
Ao desembarcarem no Brasil ainda no século XIX, os livros seminais de Allan Kardec contagiaram a intelectualidade da época. O que se seguiu, contudo, foi um processo de aculturação.
Para que a novidade se enraizasse entre as massas — em sua maioria simples e iletradas — o Espiritismo assumiu uma marca acentuadamente cristã.
Essa inclinação para o Evangelho de Jesus foi estratégica: sem ela, a filosofia espírita provavelmente teria permanecido confinada a pequenos gabinetes de estudos e curiosidades.
1. O Desvio de Rota: A "Igreja" Mediúnica
O problema central identificado na evolução do movimento espírita brasileiro não foi a adoção da ética cristã, mas o grau de inclinação que aproximou demasiadamente o Espiritismo do Catolicismo Romano.
O resultado foi um sincretismo de crenças e comportamentos onde a reflexão filosófica e a experimentação científica foram obscurecidas pelas práticas de caridade material, curas e receituários. Interessantes e necessárias à época, mas que não deveria ter se limitado a isso.
Neste cenário, o Espiritismo no Brasil transformou-se em uma religião que, em muitos aspectos, é um arremedo do Catolicismo. Muitos centros espíritas tornaram-se "igrejas mediúnicas", onde a ausência de discernimento entre a ética do Cristo e a teologia católica promoveu uma miscelânea de ritos.
2. Paralelos de Forma: Práticas Metamorfoseadas
Muitos espíritas, egressos do catolicismo ou mantendo vínculos com ambas as correntes, adaptaram seus comportamentos pessoais dentro dos núcleos espíritas, criando "altares disfarçados". Essa transmutação de ritos é evidente em práticas cotidianas:
- Água Fluidificada. Atua como um substituto direto para a "Água Benta", mantendo a percepção de um veículo para bênçãos e curas físicas;
- O Passe. Funciona liturgicamente como a "Bênção" ou imposição de mãos clerical, substituindo a figura do padre pela do médium; e
- Evangelho no Lar. Uma adaptação da leitura bíblica em família, focada na harmonia doméstica;
- Invocação aos Espíritos Superiores. Representa a invocação feita aos santos católicos para sua intercessão nas necessidades cotidianas. Trocou-se um Santo Expedito, por exemplo, por um Bezerra de Menezes;
- Calendário Litúrgico. A absorção passiva de celebrações como a Páscoa, Semana Santa, Natal e Dia de Finados, como se fizessem parte do calendário espírita original.
3. Abismos Teológicos: Onde as Doutrinas se Separam
Apesar da semelhança externa, um confronto direto entre os princípios fundamentais revela divergências profundas e, por vezes, inconciliáveis.
A Natureza da Mediunidade
Para o Catolicismo, embora o mundo espiritual possa se manifestar, a busca ativa por contato é proibida (necromancia), sob o risco de engano por entidades demoníacas. O contato seguro é restrito à oração e intercessão dos santos.
Já para o Espiritismo, a mediunidade é uma faculdade biológica e uma lei natural. O intercâmbio é incentivado como ferramenta de progresso, consolo e estudo das leis da vida.
Unicidade da Vida x Reencarnação
O dogma católico estabelece que o homem morre uma só vez, seguindo-se o julgamento e o destino eterno (Céu, Purgatório ou Inferno).
O Espiritismo, por outro lado, vê na reencarnação a base da justiça divina: o espírito passa por múltiplas existências para reparar equívocos e evoluir até a perfeição. Não há penas eternas; os estados de sofrimento são transitórios e dependentes do esforço próprio.
A Pluralidade de Vidas nos Mundos
A teologia católica tradicionalmente focou na Terra como o palco único da Redenção. Para o católico, a aceitação plena dessa pluralidade exigiria uma reformulação completa de sua teologia.
O Espiritismo classifica os mundos de acordo com seu adiantamento moral (primitivo, expiação e provas, regeneração, ditosos, puros).
Obsessão e Exorcismo
Ambos concordam que espíritos podem interferir negativamente na vida humana, mas divergem no diagnóstico e tratamento.
O catolicismo trata a possessão através do ritual de Exorcismo, exclusivo do sacerdote.
O Espiritismo utiliza a "desobsessão", focada na sintonia vibratória e no esclarecimento do espírito obsessor.
4. O Espiritismo Laico: Um Movimento de Resistência
Em resposta a esse "excesso de misticismo", surgiram segmentos dentro do movimento espírita que defendem um Espiritismo laico e atualizado. Estes grupos buscam afastar o "dogmatismo" e focar estritamente na obra de Allan Kardec sob um viés racional e científico. O argumento é que, se o Espiritismo no Brasil seguisse estritamente o modelo de seu fundador ("Kardecista"), sua feição social e prática seria completamente distinta da atual.
5. O Respeito à Individualidade de Crença
A "catolicidade" dos espíritas brasileiros é um fenômeno antropológico e sociológico compreensível, fruto da pressão de uma cultura religiosa dominante.
Neste sentido, deve-se respeitar toda manifestação particular de crença e ninguém – absolutamente ninguém – tem nada a ver com isso.
Defensor da liberdade de pensar e de expressão como valores fundamentais da condição humana, o Espiritismo deve assegurar a cada profitente o seu direito de configurar a sua fé de acordo com a sua concepção de mundo e, sobretudo, compreendendo a influência social e do atavismo neste processo de escolha.
Já não se vive mais o tempo da obrigação de se “ler na mesma cartilha”.
Já passou a época da perseguição aos diferentes com acusações de heresia, afastamento da sua comunidade e condenação pública.
Quem desejar per se misturar princípios católicos e espíritas e adaptar ao seu universo intelectual e sentimental que o faça sem qualquer constrangimento.
O respeito à "customização da fé" é um princípio aderente a alteridade que compreende a pluralidade de concepções e tenta encontrar um ponto de harmonia na convivência.
A questão não é a catolicidade dos espíritas, é a catolicidade do Espiritismo e do movimento espírita. É a transmutação deste conjunto de crenças católicas para os ambientes doutrinários com a finalidade de acomodar interesses particulares.
6. O Incentivo ao Estudo Doutrinário
Como resolver este imbróglio?
Dois caminhos iniciais podem ser sugeridos: o incentivo ao estudo doutrinário e a busca por concepções e práticas consentâneas com estes princípios.
É imprescindível ao espírita, ao admitir-se como tal, estudar (não apenas ler) aquilo que se convencionou chamar de obras básicas da filosofia espírita para sedimentar seus conhecimentos da doutrina. Saber o que é e o que não é Espiritismo representa o primeiro passo para se apropriar desta denominação.
Consequentemente, os dirigentes dos núcleos espíritas, respeitando a diversidade, deve empreender esforços no sentido de direcionar as práticas doutrinárias para a afirmação dos princípios fundamentais do Espiritismo, aliado, naturalmente, a sua aplicabilidade moral.
A transferência passiva de outras concepções para dentro dos centros espíritas, no entanto, compromete a identidade da proposta original de Allan Kardec para as agremiações doutrinárias.
O anseio por um Espiritismo mais fiel às suas bases teóricas não pode ser adiado, sob pena de a doutrina se dissolver em um sincretismo que apaga sua contribuição original.
7. Para Além do Purismo Doutrinário
Esta aderência prática aos princípios fundamentais da Filosofia Espirita nada tem a ver com a defesa de um puritanismo doutrinário que, muitas vezes, confunde o apego à letra do que ao seu espírito.
Primeiramente em reconhecer que o Espiritismo não representa a última palavra da verdade na Terra e que todas as outras correntes espiritualistas estejam abaixo de seu patamar de sabedoria. Nada disso.
O Espiritismo é mais um saber neste imenso leque de leitura da realidade e possui as suas próprias lentes para interpretá-la.
Ao invés de um suposto purismo teórico seria mais conveniente defender uma coerência doutrinária.
Ser coerente com o Espiritismo não se resume ao domínio intelectual das obras básicas aqui citadas, mas sim à integração entre o que professamos e como agimos nas "pequenas coisas" da vida.
A verdadeira coerência não é um exercício de memória acadêmica. Muitas vezes, o espírita conhece profundamente estes livros básicos de Allan Kardec e tantos outros, mas mantém um comportamento rígido ou arrogante.
A coerência real surge quando a lógica da doutrina se transforma em sentimento e atitude.
Um dos pilares da coerência doutrinária é o acolhimento da nossa própria humanidade.
Tentar aparentar uma santidade que ainda não possuímos representa uma hipocrisia moral. E talvez seja esta uma das razões da falência de algumas tradições religiosas.
Certamente o que seja mais saudável é reconhecer nossas imperfeições e trabalhar honestamente sobre elas, sem máscaras. Ser coerente é ser autêntico no processo de reforma íntima.
A coerência exige que a "fé raciocinada" que os espíritas pregam seja aplicada nos momentos de crise.
Se o indivíduo prega a imortalidade da alma e a justiça divina, por exemplo, mas entra em desespero profundo ou revolta diante de qualquer perda material, há uma quebra de coerência. O desafio é manter a base doutrinária como guia para as reações emocionais.
A maior prova de coerência doutrinária é a capacidade de amar e conviver.
"Não há coerência doutrinária onde não existe fraternidade legítima."
Se o conhecimento espírita não torna a pessoa mais doce, compreensiva e paciente com os "afetos" (família, amigos, colegas), esse conhecimento é apenas informação morta.
Pois é assim que se reconhece o verdadeiro espírita na acepção do sistematizador do pensamento espírita, Allan Kardec: pelo esforço que ele faz para dominar suas tendências negativas (sombra) e promover a sua transformação moral (luz).
Além dos rótulos e mais próximo da autenticidade.
Assim seja!
Para quem seja de assim seja.
Amém!
Para quem seja de amém.
Carlos Pereira Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
Fontes da Doutrina Espírita
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da doutrina espírita. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ribeiro. 82. ed. Brasília: FEB, 2008.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno: ou a justiça divina segundo o espiritismo. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. Brasília: FEB, 2010.
DUFAUX, Ermance (Espírito). Laços de afeto. Psicografado por Wanderley Oliveira. Belo Horizonte: Editora Dufaux, 2006. 248 p.
Fontes da Doutrina Católica
CATECISMO da Igreja Católica. 3. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993.
BÍBLIA Sagrada. Tradução da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 2. ed. Brasília: Edições CNBB, 2018.
VATICANO. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2005.
Obras de Diálogo e Análise Comparativa
PIRES, J. Herculano. O Espírito e o Tempo: introdução antropológica do espiritismo. 9. ed. São Paulo: Edicel, 2005.
INCONTRI, Dora. Kardec para o século 21. Bragança Paulista: Editora Comenius, 2024. 192 p.
STOLL, Sandra Lúcia. Espiritismo à brasileira. São Paulo: Editora UNESP; Selo Negro, 2003. 296 p.
AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. A mesa, o livro e os espíritos: gênese, evolução e atualidade do espiritismo no Brasil. Tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz. Rio de Janeiro: Editora UNESP; Selo Negro, 2009. 352 p.
KLOPPENBURG, Boaventura. O Espiritismo no Brasil: orientação para católicos. Petrópolis: Vozes, 1995.
24.2.26
Mensagem publicada na página 4 da Gazeta de Limeira de 24/02/2026
A CONSTITUIÇÃO FÍSICA
A
constituição física dos mundos que circulam no universo apresenta algumas
diferenças, principalmente naqueles que não são da mesma idade sideral. A
matéria primitiva é a mesma em todos os mundos; a maturidade é que modifica a
sua composição. Podemos observar pela ciência oficial da Terra, nas suas
pesquisas sobre os planetas vizinhos, que são encontrados neles, elementos que
existem na Terra e, certamente, outros que escapam às sensibilidades dos
instrumentos dos homens. Entretanto, os próprios cientistas revelam as
diferenças na atmosfera, umas mais pesadas, outras rarefeitas, as diferenças na
gravidade e a liberdade que têm os raios cósmicos, por não encontrarem a camada
protetora de ozônio, de que a Terra foi merecedora, a falta de mares e de
vegetação, não sendo constatada a presença dos animais. Há muitos mundos que já
foram habitados e vivem em outra função que não é a de moradia para Espíritos
reencarnados, entretanto, são todos iguais, por terem nascido da mesma fonte
universal, por terem saído das mãos de Deus. O de que mais precisamos é do
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo no coração, e que ele seja pregado em
toda parte. É pura pretensão julgar que estamos com a verdade e as outras
religiões e filosofias com a ilusão. Todos temos trabalhos a realizar diante de
Deus e de nossa consciência. Todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai. A
perfeição ainda escapa aos nossos sentidos, mas devemos buscá-la com todo
ânimo, com toda a boa vontade. O Livro dos Espíritos é um manancial onde
poderemos buscar assuntos e conversar sobre as belezas da criação e das suas
leis naturais. A constituição física dos mundos tem algumas diferenças, porém,
tem muito mais igualdade do que diferença, desde a forma até os elementos.
Filosofia Espírita L.E.56 – João N. Maia
– Miramez – Toninho Barana.
23.2.26
Prece por Determinação
Eu não sou muito de orar,
Porque, em verdade, não saberia
Nem por onde começar,
Tantos são os rogos
Que tenho a fazer-Te.
A lista das petições é grande, Senhor:
Paciência.
Compreensão.
Aceitação.
Desapego.
Renúncia.
Indulgência.
Humildade...
E por aí, vai, enchendo
Um caderno de mil folhas!
Todavia, para resumir,
Eu te pediria apenas que me auxiliasses
Na Determinação de ser melhor
Do que sou,
Na superação de mim mesmo,
Fazendo o bem ao meu alcance,
Sem dar ouvidos àqueles
Que procuram me desanimar
De seguir-Te os passos,
Hoje e para sempre!...
Inácio Ferreira- Blog Mediunidade na Internet
Uberaba – MG, 22 de fevereiro de 2026.
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