No início dos anos dois mil, tive conhecimento de uma palavra e, consequentemente, de um conceito que me chamou a atenção: alteridade.
A partir daí, comecei a estudar sobre o assunto e a me surpreender com o tanto de substância que aquele conceito trazia. Com o tempo, por causa da explosão da internet e da possibilidade de acesso a uma pluralidade enorme de opiniões, entendi não apenas a pertinência, mas, sobretudo, a urgência que o tema possui no mundo contemporâneo.
Percebi que sem ela, sem criarmos e exercitarmos a ética da alteridade, estaremos todos nós condenados às lutas políticas sem fim; às matanças das guerras; ao caos civilizatório; ao conflito destruidor da humanidade.
Esta conclusão a que chego não é exagero.
Tomarei como exemplo didático para abordar o tema da alteridade o debate realizado pelo Podcast 3 Irmãos, entre o pastor Henrique Vieira e Ben Mendes, o qual reproduzo abaixo. Se possível, assista o vídeo e depois continue a ler o que vem a seguir.
https://youtu.be/sr625nLTwFc
1. Conceito de alteridade
Alteridade (do latim alter: o outro) é a capacidade de reconhecer, respeitar e acolher o "outro" em sua diferença, sem tentar reduzi-lo a si mesmo ou invalidar a sua existência.
Embora a discussão sobre o "outro" exista desde a Grécia Antiga, foi o filósofo lituano-francês Emmanuel Levinas (1906–1995) quem colocou a alteridade como o centro da filosofia, elevando a Ética ao status de "Filosofia Primeira" (acima da Metafísica).
Para Levinas, a alteridade não é apenas uma característica; é a essência do Outro que individualmente nunca ninguém poderia capturar ou compreender totalmente.
A relação de alteridade para Levinas é assimétrica, haja vista que impõe obrigações para com o outro sem esperar nada em troca. O outro será sempre superior a cada um no sentido de que sua existência impõe um limite ao egoísmo que carregamos.
Outros filósofos avançaram na reflexão sobre alteridade, desde o existencialismo até a fenomenologia.
Martin Buber (Áustria, 1878-1965) propôs a existência de duas formas fundamentais de nos relacionarmos com o mundo: (1) o Eu-Isso, quando tratamos o outro como uma coisa, uma ferramenta ou um objeto de análise; e (2) o Eu-Tu, quando ocorre a relação de diálogo verdadeiro, onde reconhecemos a alteridade total do outro. Para Buber, Deus é o "Tu Eterno" que encontramos através das nossas relações com os outros seres humanos.
Para Jean-Paul Sartre (França, 1905-1980), a alteridade é marcada pelo conflito. Ele argumenta que o olhar do outro nos transforma em objeto, roubando a liberdade plena. É dele a famosa citação: "O inferno são os outros". Isso significa que a presença do outro (a alteridade) nos obriga a nos vermos através de olhos alheios, o que gera uma tensão constante entre o "Eu" e o "Outro".
Mikhail Bakhtin (Rússia, 1895-1975) focou o conceito de alteridade na linguagem. Para ele, a consciência humana é essencialmente dialógica. Só passamos a ter consciência de nós mesmos através da interação com a alteridade. Eu preciso do olhar e da palavra do outro para completar a minha própria identidade.
Simone de Beauvoir (França, 1908-1986) aplica o conceito de alteridade para explicar a opressão feminina. Ela argumenta que o homem se colocou como o "Sujeito" (o Absoluto), enquanto a mulher foi definida como o "Outro" (o Relativo). Ela demonstra como a sociedade pode usar a alteridade para marginalizar grupos, transformando a "diferença" em "inferioridade".
2. Aplicando o conceito de alteridade no debate
O debate revelou um contraste profundo entre duas posturas: uma que utiliza a diferença como ferramenta de exclusão e outra que a utiliza como ponte para a comunhão.
Na fala de Ben Mendes, observa-se uma resistência em reconhecer a legitimidade da identidade e da fé de Henrique Vieira. A alteridade é substituída pelo dogmatismo, onde o "outro" só é aceitável se enquadrado nos critérios de verdade do "eu".
A partir daí, o debate descamba em mostrar o que representa a ausência da ética da alteridade nas relações. Vejamos algumas citações que denotam isto:
"Não dá nem pra te chamar de pastor" e "Além de herege, eu digo que você é desonesto teologicamente".
Nesta citação, Ben Mendes desumaniza e rotula quem pensa diferente dele. Nega a identidade ministerial de Henrique Vieira, utilizando termos como "anátema" e "herege". Ao fazer isso, ele retira do oponente o direito de ser reconhecido como par no diálogo.
"Muitos estão naquela condição sim porque não querem o trabalho. Preferem ficar em uma situação onde pessoas com a mentalidade do Henrique fomentam a estadia dessas pessoas lá".
Ben Mendes, nesta citação, trata as pessoas em situação de rua com profunda falta de empatia. O "outro" (o pobre) é visto como alguém que "escolhe" o sofrimento, ignorando as complexidades estruturais que o definem.
Ao contrário desta postura permanente de anulação do outro, como se inimigo fosse, o pastor Henrique Vieira conclamava em todo o debate a necessidade de respeito ao outro e a tentativa de construção de uma relação de paz na diferença.
Henrique Vieira personifica a alteridade ao defender que a diferença não é um obstáculo, mas um valor democrático e cristão. Sua fala busca construir "pontes" em vez de "muros".
"O meu oponente hoje, eu reconheço nele dignidade. Eu reconheço nele cidadania. Eu reconheço nele o direito de expressar a sua fé e as suas posições políticas".
Mesmo sob ataque, Henrique Vieira reafirma a humanidade e o direito de fala de Mendes, praticando a alteridade no sentido mais estrito: reconhecer no oponente um igual em dignidade.
“Eu fui lá num ato de ponte de diálogo para dizer isso aqui é legítimo... transformando muros de preconceito em pontes de comunhão" e "Eu não fui lá tolerar eu fui lá aprender com a cultura com a espiritualidade com a religiosidade".
Lição de alteridade religiosa e racial do pastor. Henrique Vieira defende as religiões de matriz africana, reconhecendo nelas uma "sacralidade" que muitos de seu próprio grupo negam. Ele se desloca de sua posição de "pastor cristão" para aprender com o "outro" religioso.
"Eu sou um homem cheio de contradições e limites... eu não tenho todas as respostas".
Ao admitir suas próprias falhas, Henrique Vieira se coloca no mesmo nível que qualquer outra pessoa, evitando a postura de superioridade moral que impede a alteridade.
O debate ilustra o embate entre a identidade exclusivista (Ben Mendes), onde o "outro" é um erro a ser corrigido ou um perigo a ser combatido; e identidade pluralista (Henrique Vieira), onde o "outro" é um mistério a ser respeitado e um irmão a ser amado.
Em um, a alteridade é inexistente porque a diferença é vista como desonestidade ou heresia. No outro, a alteridade é o fio condutor, permitindo que o diálogo ocorra mesmo em meio a divergências teológicas e políticas profundas. O "outro" é um mistério a ser respeitado e um irmão a ser amado.
Henrique Vieira resume essa análise ao afirmar que o país precisa de um ambiente onde as pessoas de quem ele discorda não sejam vistas como "indignas da minha saudação ou do meu olhar", o que é a essência do conceito de alteridade.
3. A alteridade nos arraiais espíritas
Como aprendizes da convivência fraterna e harmoniosa, nós espíritas, intramuros, ainda carecemos muito de sermos alteritários.
Dizemo-nos defensores da liberdade de expressão, do livre-pensar, como pressupõe toda boa ciência e filosofia, mas nossas posturas ao longo do tempo, com exceções – é claro, tem sido de rechaço e perseguição, onde pensar fora do establishment é motivo de afastamento sutil do “herege” (possivelmente para não contaminar as ovelhas) e acusação, não raro, de obsessão grave.
Na realidade, ressoam inconscientemente velhos comportamentos do passado de repressão às normas estabelecidas e se edita um novo “Index Prohibitorum”, de livros, de exposições, de pessoas, de ideias.
Na contramão deste raciocínio, surgiu há mais de vinte anos uma literatura espírita que colocou a alteridade na ordem do dia.
Pelas mãos do médium Wanderley Oliveira, o espírito Ermance Dufaux, em obediência à solicitação do espírito Adolfo Bezerra de Menezes, começou a dar tintas mais significativas ao tema convidando a todos a praticarem a ética da alteridade nos mais diversos flancos.
Para Ermance Dufaux, a alteridade não é apenas "tolerar" o próximo, mas um exercício profundo de descentramento do ego. Ela explica que a maior barreira para a alteridade é o orgulho, que nos faz querer que o outro pense, sinta e aja conforme os nossos próprios valores.
A alteridade surge quando paramos de projetar nossas necessidades e sombras no outro. Seria a capacidade de permitir que o outro seja quem ele é, sem o julgamento punitivo que tenta "moldá-lo" à nossa imagem.
Um dos pontos centrais na obra de Ermance Dufaux é o respeito ao grau evolutivo e ao ritmo de cada espírito. Ela trabalha a ideia de que cada pessoa possui um "mapa" emocional e espiritual diferente:
"O respeito à individualidade alheia é o teste supremo da nossa própria harmonia. Quem não aceita o outro como ele é, ainda não aprendeu a aceitar a si mesmo em suas próprias limitações."
A alteridade implica reconhecer que o outro tem o direito de errar e de estar em um estágio de aprendizado diferente do nosso, sem que isso o torne inferior.
Ermance Dufaux propõe que a verdadeira fraternidade exige uma escuta empática, que é uma ferramenta prática da alteridade.
Escutar o outro não é apenas ouvir palavras, mas sintonizar com a dor e a história que o outro carrega. A alteridade, aqui, manifesta-se no silêncio do julgamento para que a voz do próximo possa ecoar.
"A caridade de ouvir é talvez uma das maiores expressões de amor que podemos oferecer, pois nela doamos o tempo e o espaço de nossa alma para que o outro possa existir diante de nós."
Ermance Dufaux alerta frequentemente sobre as relações doentias de dependência emocional (simbiose). Para ela, a alteridade é o antídoto para esses vínculos.
Enquanto na simbiose eu "anulo" o outro ou me deixo anular, na alteridade há o reconhecimento de duas consciências distintas e autônomas.
Amar com alteridade, segundo a Ermance, é amar com liberdade. É o "amor-liberdade" em contraposição ao "amor-posse".
Ermance sugere que não devemos buscar uma perfeição utópica na convivência, mas uma fraternidade possível.
Reconhecer os limites do próximo e não exigir dele uma virtude que ele ainda não possui.
Se eu exijo que o outro seja perfeito para que eu o ame, estou amando o meu ideal de perfeição, e não a pessoa real. A alteridade é o amor pelo ser real, não pelo ideal.
4. A alteridade em Allan Kardec
A fase de transição planetária que tanto é citada no meio espírita não se fará sem o embate de antigos com novos modelos civilizatórios. A travessia de uma fase para outra se caracterizaria, como previu o sistematizador do pensamento espírita, Allan Kardec, pelo choque de ideias.
Allan Kardec era por excelência um ser alteritário em seus valores.
Lembremos, oportunamente, algumas das suas citações nesta direção:
- "Pelo choque das ideias é que se desprende a luz." (Revista Espírita, julho de 1864, no artigo "Autoridade da Doutrina Espírita").
- "As contradições, aliás, nem sempre são tão reais quanto parecem. [...] O meio de se chegar à verdade é o de se analisar todas as opiniões, de se comparar as razões pró e contra, e de se não decidir senão quando a lógica e o bom senso tenham pronunciado o seu veredito." (O Livro dos Espíritos, Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item VII).
- "A divergência de opiniões não deve jamais alterar os sentimentos de fraternidade, nem ser um pretexto para o azedume; se não nos podemos entender sobre certos pontos, entendamo-nos sobre os princípios fundamentais que devem ser o laço comum." (Revista Espírita, fevereiro de 1866).
- "A união não consiste na uniformidade absoluta de pensamentos, o que é impossível, mas na concordância dos sentimentos morais." (O Livro dos Médiuns, Cap. XXIX, item 334).
Allan Kardec propunha um "choque de ideias" produtivo baseado nos seguintes pilares: (1) Universalidade. Se uma ideia é verdadeira, ela resistirá ao choque e será confirmada em múltiplos lugares; (2) Lógica. O argumento deve passar pelo crivo da razão, independentemente da autoridade de quem o profere; e (3) Fraternidade. Pode-se discordar da ideia sem atacar o indivíduo, exercício prático de alteridade.
5. A urgência da alteridade
Parecia que os espíritos já sabiam – e creio que sim – do que estava por vir para a humanidade e inseriu a pauta da alteridade como prioritária para efetivamente se construir um mundo regenerado.
Uma civilização evoluída se alicerça na busca da convergência de interesses na diversidade e não na anulação dos contrários.
Aquele que se denomina espírita – e mais, espírita cristão – deve estar em consonância com os ensinamentos dos Espíritos Superiores e com Jesus.
Neste sentido, é razoável admitir que pode até existir alteridade sem amor, mas jamais existirá amor sem alteridade.
Não edificaremos um mundo justo, igual e fraterno sem reconhecemos o outro, ouvirmos empaticamente o outro, procurarmos entender o outro (sem necessariamente concordar com ele), e buscarmos sinceramente a convergência no que seja possível avançar, entendendo que ali estarão dois irmãos que apenas pensam diferente.
Hélder Câmara pregava que “se diverges de mim, tu me enriqueces”.
Paulo Freire ensinava que "ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo."
Maria Modesto Cravo defende que “divergir sempre, deixar de amar jamais”.
É o que penso por ora, meu irmão!
Posso estar equivocado em meus pensamentos e argumentos. Talvez 10% do que escrevi. 30%...50%...ou mais.
É o meu lado de percepção da realidade das coisas e do que aprendi até o momento na minha trajetória evolutiva de espírito imortal que está apenas no abc da eternidade.
Desse modo, se o que expresso não bate com a sua visão de mundo, peço a sua alteridade em ler este artigo.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências
1. Debate e Referências Contemporâneas
MENDES, Ben; VIEIRA, Henrique. Política e Religião: Debate sobre fundamentalismo e justiça social. YouTube, 2026.
MÍDIA NINJA. Henrique Vieira expõe o fundamentalismo da extrema-direita. Canal Mídia Ninja, YouTube, 2026.
2. Filosofia e Conceitos de Alteridade
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Original publicado em 1979).
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. (Original publicado em 1949).
BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução de Newton Aquiles Von Zuben. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2001. (Original publicado em 1923).
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988. (Original publicado em 1961).
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 2005. (Original publicado em 1943).
3. Literatura Espírita e Psicológica
DUFAUX, Ermance (Espírito). Escutando Sentimentos. Psicografado por Wanderley Oliveira. Belo Horizonte: Editora Dufaux, 2004.
DUFAUX, Ermance (Espírito). Merecer ser Feliz. Psicografado por Wanderley Oliveira. Belo Horizonte: Editora Dufaux, 2002.
DUFAUX, Ermance (Espírito). Reforma Íntima sem Martírio. Psicografado por Wanderley Oliveira. Belo Horizonte: Editora Dufaux, 2001.
Para quem desejar aprofundar sobre o tema, sugiro assistir a série "A Urgência da Alteridade" que fiz com Alexandra Torres:
https://youtu.be/ihTU-rrNBfI