Luc. 9:51. Em se completando, porém, os dias de sua elevação, aconteceu que ele fortaleceu sua personagem para ir a Jerusalém.
Lucas apresenta aqui a frase reveladora que, por ser bastante clara, trouxe sempre aos hermeneutas dificuldades de tradução. Observemos:
A primeira frase: "quando se completaram os dias de sua elevação com os sentidos respectivamente de "foi elevado", referindo-se à chamada "ascensão". Esse termo, entretanto, é usado no Antigo Testamento, quando fala da subida de Elias (2.º Reis, 2:11), na de Moisés (1.º Mac.2:58 e Eccli. 48:9) e na de Enoch (Eccli. 49:14).
A segunda frase: "e fortaleceu sua personagem para ir a Jerusalém" personagem geralmente traduzida por "firmou seu rosto" ou "manifestou a firme resolução". No entanto, literalmente significa pessoa e portanto especifica a personagem encarnada, designando o todo pela parte. Jesus sabia que iria começar a fase final de sua paixão, e logicamente a coragem da parte humana precisava ser fortalecida pelo Espírito, para que se animasse a enfrentar o cenário dos sofrimentos físicos atrozes.
A frase de Lucas, embora incompreensível aos profanos, é clara para os que já viveram essas fases.
Suas palavras: "em se completando, porém, os dias de sua elevação", que tantas dúvidas têm suscitado nos hermeneutas, pode ser assim traduzida em linguagem atual: "já tendo, pois, transcorrido os "prazos de carência" para sua promoção ao grau seguinte".
Todos os passos iniciáticos eram dados controladamente e, entre um e outro, o candidato era obrigado a demonstrar o aproveitamento que tivera; mas além disso, era indispensável que respeitasse os intervalos prefixados, os "prazos de carência" determinados para cada intervalo. Só depois de transcorrido o tempo regulamentar, lhe era permitido dar o passo seguinte.
Diz-nos Lucas que terminara o prazo da espera, e chegara a hora de submeter-se à prova para, se aprovado, passar ao grau seguinte, "ser elevado" ou "promovido". As provas desse passo eram duras, rudes, dolorosas. E é dito que a individualidade (Jesus) "fortaleceu sua personagem, para que não esmorecesse e tivesse a coragem de colocar-se entre as mãos daqueles que o fariam passar pelas angústias e aflições da provação violenta a que tinha de submeter-se.
Já tinham sido superadas as fases iniciais:
1.º - Vencera a grande dificuldade do mergulho consciente na matéria, com todos os horrores causados pelas limitações à liberdade de um Espírito infinitamente superior, como era o de Jesus.
Vencida a prova, tivera a primeira promoção, quando conseguira, na presença do "mestre" João Batista, dar, enquanto na carne, o mergulho no Espírito.
2.º - O segundo passo, a "confirmação", veio em virtude do adiantamento de seu espírito, nesse mesmo momento do mergulho, com a epifania, ou "manifestação" da aprovação divina, por meio da frase:
"este é meu Filho, o amado". Com um ato, superara os dois primeiros graus.
3.º - Para galgar o terceiro, tinha de comprovar o resultado da "metánoia", ou seja, a modificação da mente. É então submetido às "tentações" ocasionadas pela matéria: vaidade, orgulho e ambição. Superou-as a todas, dando inequívocas provas de superioridade e elevação máxima. Provava na prática que o Espírito já dominara a matéria totalmente. Podia então dar o passo seguinte.
4.º - O ingresso fora feito com a espetacular manifestação da "Transfiguração", a "ação de graças" do homem pela vitória obtida, recebendo a plena efusão do Espírito Divino, com a aprovação confirmada: "este é meu Filho, o amado, ouvi-lo". Depois desse passo, unido já à Divindade, pode Jesus dar as lições maiores: "minha carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é verdadeiramente bebida" (João, 6:55). Ensinou-o com clareza absoluta e mais tarde, na chamada "última ceia", iria revelar integralmente o mistério cristão da união com Deus.
Mas agora chegara o momento de preparar-se para as provas dolorosas em que teria que submeter-se ao violento afastamento dos veículos físicos, para unir-se inteiramente a Deus, num "matrimônio" místico total e definitivo: "o que Deus uniu, o homem não separe" (Mat. 19:6). Mas, para esse grau superior, havia necessidade absoluta da "experiência sofrida", a paixão. Era o ponto crucial, em que mergulharia em cheio na DOR-AMOR, desligando-se violentamente da parte inferior de seu ser, em holocausto cruento, a fim de libertar a parte superior para a união definitiva com a Divindade no matrimônio indissolúvel.
Diante dessas perspectivas sombrias, a parte física assusta-se, teme e treme, procurando subtrair-se às provas (coisa que, veremos adiante, ocorre com o homem Jesus no instante decisivo). Tudo isso é explicado pelo evangelista com a frase: "fortaleceu sua personagem", para que tivesse a coragem indispensável de colocar-se espontaneamente entre as mãos dos algozes.
No momento crucial do passo decisivo, quando as forças começam a fraquejar, Ele recorre à prece a fim de receber novas energias; e as recebe. E segue adiante até o sacrifício final. Exemplo magnífico para todos nós, revelando que realmente "a carne é fraca" (Mat. 26:41 e Marc. 14:38), mas que nem por isso devemos esmorecer nem desesperar-nos: os grandes Espíritos também sofrem, quando na carne, as limitações que a carne impõe a todos.
Livro: Sabedoria do Evangelho, volume 4 - Carlos Torres Pastorino
Lucas apresenta aqui a frase reveladora que, por ser bastante clara, trouxe sempre aos hermeneutas dificuldades de tradução. Observemos:
A primeira frase: "quando se completaram os dias de sua elevação com os sentidos respectivamente de "foi elevado", referindo-se à chamada "ascensão". Esse termo, entretanto, é usado no Antigo Testamento, quando fala da subida de Elias (2.º Reis, 2:11), na de Moisés (1.º Mac.2:58 e Eccli. 48:9) e na de Enoch (Eccli. 49:14).
A segunda frase: "e fortaleceu sua personagem para ir a Jerusalém" personagem geralmente traduzida por "firmou seu rosto" ou "manifestou a firme resolução". No entanto, literalmente significa pessoa e portanto especifica a personagem encarnada, designando o todo pela parte. Jesus sabia que iria começar a fase final de sua paixão, e logicamente a coragem da parte humana precisava ser fortalecida pelo Espírito, para que se animasse a enfrentar o cenário dos sofrimentos físicos atrozes.
A frase de Lucas, embora incompreensível aos profanos, é clara para os que já viveram essas fases.
Suas palavras: "em se completando, porém, os dias de sua elevação", que tantas dúvidas têm suscitado nos hermeneutas, pode ser assim traduzida em linguagem atual: "já tendo, pois, transcorrido os "prazos de carência" para sua promoção ao grau seguinte".
Todos os passos iniciáticos eram dados controladamente e, entre um e outro, o candidato era obrigado a demonstrar o aproveitamento que tivera; mas além disso, era indispensável que respeitasse os intervalos prefixados, os "prazos de carência" determinados para cada intervalo. Só depois de transcorrido o tempo regulamentar, lhe era permitido dar o passo seguinte.
Diz-nos Lucas que terminara o prazo da espera, e chegara a hora de submeter-se à prova para, se aprovado, passar ao grau seguinte, "ser elevado" ou "promovido". As provas desse passo eram duras, rudes, dolorosas. E é dito que a individualidade (Jesus) "fortaleceu sua personagem, para que não esmorecesse e tivesse a coragem de colocar-se entre as mãos daqueles que o fariam passar pelas angústias e aflições da provação violenta a que tinha de submeter-se.
Já tinham sido superadas as fases iniciais:
1.º - Vencera a grande dificuldade do mergulho consciente na matéria, com todos os horrores causados pelas limitações à liberdade de um Espírito infinitamente superior, como era o de Jesus.
Vencida a prova, tivera a primeira promoção, quando conseguira, na presença do "mestre" João Batista, dar, enquanto na carne, o mergulho no Espírito.
2.º - O segundo passo, a "confirmação", veio em virtude do adiantamento de seu espírito, nesse mesmo momento do mergulho, com a epifania, ou "manifestação" da aprovação divina, por meio da frase:
"este é meu Filho, o amado". Com um ato, superara os dois primeiros graus.
3.º - Para galgar o terceiro, tinha de comprovar o resultado da "metánoia", ou seja, a modificação da mente. É então submetido às "tentações" ocasionadas pela matéria: vaidade, orgulho e ambição. Superou-as a todas, dando inequívocas provas de superioridade e elevação máxima. Provava na prática que o Espírito já dominara a matéria totalmente. Podia então dar o passo seguinte.
4.º - O ingresso fora feito com a espetacular manifestação da "Transfiguração", a "ação de graças" do homem pela vitória obtida, recebendo a plena efusão do Espírito Divino, com a aprovação confirmada: "este é meu Filho, o amado, ouvi-lo". Depois desse passo, unido já à Divindade, pode Jesus dar as lições maiores: "minha carne é verdadeiramente comida, e meu sangue é verdadeiramente bebida" (João, 6:55). Ensinou-o com clareza absoluta e mais tarde, na chamada "última ceia", iria revelar integralmente o mistério cristão da união com Deus.
Mas agora chegara o momento de preparar-se para as provas dolorosas em que teria que submeter-se ao violento afastamento dos veículos físicos, para unir-se inteiramente a Deus, num "matrimônio" místico total e definitivo: "o que Deus uniu, o homem não separe" (Mat. 19:6). Mas, para esse grau superior, havia necessidade absoluta da "experiência sofrida", a paixão. Era o ponto crucial, em que mergulharia em cheio na DOR-AMOR, desligando-se violentamente da parte inferior de seu ser, em holocausto cruento, a fim de libertar a parte superior para a união definitiva com a Divindade no matrimônio indissolúvel.
Diante dessas perspectivas sombrias, a parte física assusta-se, teme e treme, procurando subtrair-se às provas (coisa que, veremos adiante, ocorre com o homem Jesus no instante decisivo). Tudo isso é explicado pelo evangelista com a frase: "fortaleceu sua personagem", para que tivesse a coragem indispensável de colocar-se espontaneamente entre as mãos dos algozes.
No momento crucial do passo decisivo, quando as forças começam a fraquejar, Ele recorre à prece a fim de receber novas energias; e as recebe. E segue adiante até o sacrifício final. Exemplo magnífico para todos nós, revelando que realmente "a carne é fraca" (Mat. 26:41 e Marc. 14:38), mas que nem por isso devemos esmorecer nem desesperar-nos: os grandes Espíritos também sofrem, quando na carne, as limitações que a carne impõe a todos.
Livro: Sabedoria do Evangelho, volume 4 - Carlos Torres Pastorino
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