29.7.26

FASCINAÇÃO

Ciro Costa*
 
Atravessara, aflito, os umbrais do outro mundo
E, ao erguer-se da lousa, exânime, febrento,
No sepulcro imagina o suntuoso aposento
Onde, a sós, afagava o tesouro infecundo.
 
– “Meu dinheiro!” – reclama, exasperado e atento.
– "Ouro! Meu ouro só! Por nada me confundo!
Ladrões! Quem me furtou?” – esbraveja iracundo,
Em largo desafio aos sarcasmos do vento.
 
Ouve o silêncio em torno e ruge: – “Agora, agora!
Achei meu cofre! Achei!... ” – gargalha, grita, chora,
Na homérica ilusão que ele mesmo proclama...
 
Inclina-se. Algo colhe e, em delírio perfeito,
Investe contra a sombra e aperta contra o peito
Velha tampa de esquife empastada de lama.
     
(*) Depois de formar-se em Direito pela Faculdade de S. Paulo, o artista de «Pai João» viajou pela Europa e pelo Oriente, chegando a visitar a India e o Egito. Residiu por algum tempo no Rio de Janeiro. Juntamente com Olavo Bilac, Martins Fontes e outros intelectuais, fundou a «Sociedade dos Homens de Letras do Brasil». Colaborou nas revistas paulistas da época, dentre elas A Cigarra e A Vida Moderna. Eleito para a Academia Paulista de Letras, não chegou a tomar posse. «Ciro Costa era uma irradiação larga, amplíssima de talento e de simpatia» – afirma Marques da Cruz na Revista da Academia Paulista de Letras, nº. 25, pág. 169. «Epígono da geração acadêmica do Romantismo», fundamentalmente um romântico, ele viveu, porém, a vida da sua época. «Foi parnasiano e simbolista» – escreve Marques da Cruz, concluindo. (Limeira, Est. de S. Paulo, 18 de Março de 1879 – Rio de Janeiro, GB, 22 de Junho de 1937.)
BIBLIOGRAFIA: Estelário ; Terra Prometida.
Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.

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