2.10.26

Sexualidade


 

Recados do Purgatório

A obra clássica da espiritualidade cristã conhecida como O Manuscrito do Purgatório revela os registros íntimos deixados pela Irmã Marie de la Croix (cujo nome civil era Elisa Sofia Clementina Hébert), religiosa professa que viveu no convento das Clarissas/Religiosas de Nossa Senhora da Compaixão em Valognes, na França, falecida em 1917.
Marie de la Croix levava uma vida de recolhimento, marcada por profundas aspirações místicas, rigor com os deveres conventuais e uma intensa dedicação à oração.
Por outro lado, sua companheira de congregação, a Irmã Marie Gabrielle, havia falecido prematuramente em fevereiro de 1871, com apenas trinta e seis anos de idade.
Em vida terrena, Marie Gabrielle destacava-se por uma personalidade por vezes volúvel, negligente em relação a certas exigências da vida religiosa e relutante frente aos conselhos de correção e disciplina que Marie de la Croix frequentemente lhe direcionava.
Era comum que Marie Gabrielle dissesse em tom de brincadeira à sua colega: "Se eu for para o Purgatório, você me tirará de lá!", sem que nenhuma das duas imaginasse o teor profético e literal que essa frase assumiria anos mais tarde.
O intercâmbio entre os dois planos de vida teve início em novembro de 1873, quando Marie de la Croix passou a escutar gemidos misteriosos e prolongados dentro do claustro. Inicialmente assustada e temendo que se tratasse de alguma ilusão ou perturbação de ordem anímica ou espiritual inferior, a religiosa intensificou suas preces, vias-sacras e comunhões.
O fenômeno persistiu até que, em fevereiro de 1874, a voz se identificou claramente como sendo da falecida Irmã Marie Gabrielle. 
A partir desse momento, estabeleceu-se uma comunicação constante por meio da audição anímica (clarividência e Clariaudiência) e da escrita mediúnica.
Marie Gabrielle relatou detalhadamente a realidade do estado purgatorial.
Dividiu suas experiências em diferentes níveis de sofrimento espiritual decorrentes das faltas cometidas em vida: desde a falta de fervor na oração e o apego às vaidades mundanas até o descaso com os votos sagrados.
O conteúdo das mensagens enfatizava a necessidade de profunda conversão, o valor do sofrimento suportado com resignação, a importância das orações e missas em sufrágio, e advertências severas sobre a responsabilidade moral daqueles que servem no altar e na educação religiosa.
A Filosofia Espírita, sistematizada por Allan Kardec, explica que os fenômenos descritos no manuscrito traduzem-se como manifestações legítimas de espíritos sofredores que ainda se encontram presos às vibrações e aos resíduos densos de suas imperfeições terrenas.
O conceito de "Purgatório" não é compreendido pelo Espiritismo como um local geográfico de tormentos físicos eternos ou aplicados por um Deus punitivo, mas sim como um estado moral de consciência — a erraticidade dolorosa — onde o espírito estagiário colhe as consequências lógicas de suas próprias escolhas e desvios morais.
O grau de sofrimento na dimensão espiritual está estritamente vinculado à intensidade do arrependimento e à natureza das faltas cometidas.
O fato de Marie Gabrielle descrever dores morais intensas, angústias e saudades de Deus reflete o processo de autoconfrontação do espírito com o seu passado.
As preces enviadas pelos vivos na carne — como as orações de Marie de la Croix — possuem real eficácia, pois o pensamento emitido com amor e fervor atua como fluido benéfico que consola, alivia e esclarece o espírito sofredor, estimulando-o ao arrependimento e ao progresso moral rumo a esferas mais luminosas.
Tais fatos também demonstram a universalidades dos fenômenos espíritas que não se isolam nas paredes teóricas do Espiritismo, mas constitui sensibilidade humana natural a todas as culturas, povos e religiões.
A mediunidade da irmã Marie de la Croix é um demonstrativo claro dessa amplitude de interface com o mundo espiritual, pela força dos fatos, mesmo não sendo uma prática contínua da Igreja Católica Apostólica Romana.
É mais uma demonstração de que no contexto existencial existe apenas um fato patente: vida – somente vida.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
MARIA DA CRUZ, Irmã. O Manuscrito do Purgatório. Tradução baseada na edição francesa Le Manuscrit du Purgatoire. Anápolis: Editora Cidade do Imaculado Coração de Maria, 2005.
TAVARES, Clóvis. Mediunidade dos Santos. Brasília: FEB; Araras: IDE, 2015.

Filho Adotivo


 

Comentário da questão 828 do Livro dos Espíritos

LIBERALIDADE
A palavra é força poderosa em todas as suas ressonâncias, no entanto, nem sempre o que se fala corresponde à vivência. É muito comum a criatura anunciar certas verdades, porém, se encontrar longe delas. Grandes homens comumente são liberais com os estranhos e carrascos com a própria família. Esforçam-se e, por vezes, sofrem para parecerem o que não são para os outros, por simples necessidade de manter a posição, mas os pensamentos que partem da sua realidade interna agitam em direção àqueles que vivem com eles, desfazendo dos esforços alheios que os ajudam no dia-a-dia. Esta é a verdade, entretanto, a vida não os despreza, procurando daqui e dali meios de os educar, pois este é o destino de todas as almas criadas por Deus.
A teoria quase sempre vem primeiro para os estudiosos da verdade, e os teóricos sabem das leis, mas não as vivem. É dessa falta que eles sofrem as consequências, que a mesma lei os castiga sem remissão. Os agentes de Deus têm tolerância para com essa faixa de almas, que representa quase toda a população da Terra, por saberem que não irão viver nessa postura eternamente. Algum dia, usarão as suas próprias forças para se corrigirem. As almas iluminadas, voltando ao passado, observamos que elas também passaram pelos mesmos processos de reajustamento espiritual. O "não julgueis para não serdes julgados" é ponto divino sobre como amar, ainda mais aos que não despertaram para o amor.
O Mestre dos mestres, que poderemos considerar como o canal da misericórdia para a humanidade, aliviava as faltas dos homens e, por vezes, lhes perdoava os pecados, não no sentido exato da palavra, porque misericórdia é alívio. Ele dizia quase sempre quando curava um enfermo: "Vai, e não tornes a pecar". E Lucas anotou no capítulo cinco, versículo vinte e três:
Qual é mais fácil, dizer:
Estão perdoados os teus pecados, ou levanta-te e anda?
Jesus aplicava todos os meios possíveis para aliviar e mesmo curar os enfermos dos seus males. Ò Senhor era liberal com todas as criaturas, por saber que todos são iguais, na igualdade com que Deus os criou. Os mais adiantados nos caminhos da espiritualidade são aqueles que usam teoria, sem esquecerem o esforço de viver o que falam e pregam aos outros. Podemos observar nesse tipo de Espírito a maturidade à vista.
Aquele que pretende parecer desperto em seus valores e não o é, engana-se a si mesmo, mas, como todo engano é breve, ele mesmo desconfia do seu comportamento, e a dor, os infortúnios e todos os tipos de problemas, fazem com que ele modifique o modo pelo qual vive, ganhando condições no trabalho de libertação, para se libertar definitivamente.
Deus sabe, e todos os benfeitores espirituais reconhecem, que não existe outra marcha em se estudando a ascensão dos Espíritos. Os recursos que têm para educar os homens, visam mostrar que devem se esforçar para melhorar, porém, sabemos que isso se processa passo a passo, na esteira do tempo.
Convém notar que todos passam por esses processos, e quem mais sabe disto é o Criador. Em todos os lances de Jesus, quando esteve na Terra junto aos homens, sentimos a irradiação da sua tolerância para com aqueles que descuidam da vivência das leis naturais, e isso ocorreu com os próprios discípulos do seu coração.
A liberalidade e a fraternidade devem ser exercitadas em todas as direções do viver, para que a vida se torne o verdadeiro amor.
Livro Filosofia Espírita - João Nunes Maia - Miramez