18.5.26

O Choque Geracional nos Ambientes Espíritas

Um filme que utilizei bastante como exemplo de mudança organizacional nas minhas capacitações para gestores e lideranças foi “Mudança de Hábito”, 1992.
A cena em que os jovens da vizinhança entram na igreja de St. Katherine é o grande ponto de virada do filme. Ela simboliza a quebra da barreira entre a instituição religiosa rígida e a comunidade vibrante, mas negligenciada ao redor.
Antes da chegada de Deloris Van Cartier (Whoopi Goldberg), a paróquia de St. Katherine era um lugar sombrio, vazio e desconectado da realidade brutal das ruas de São Francisco.
A Madre Superiora acreditava que a igreja deveria ser um refúgio de silêncio e tradição, mas isso só afastava as pessoas. O coral das freiras era, honestamente, terrível — desafinado e sem vida.
Quando Deloris assume a regência do coral e decide que, para atrair as pessoas, a música precisa ter alma e ritmo. Ela começa a infundir clássicos religiosos com a energia do Motown e do Soul.
Enquanto as freiras ensaiam e se apresentam com uma nova roupagem, as portas da igreja, que antes ficavam fechadas, são abertas.
Na rua, os jovens que costumam passar o tempo jogando basquete ou apenas vagando pelo bairro param o que estão fazendo. Eles ouvem um som que não reconhecem como "música de igreja": é rítmico, animado e contagiante.
Atraídos pela batida de músicas eles se aproximam timidamente da entrada. A expressão no rosto deles é de choque ao verem as freiras dançando e cantando com energia.
Aos poucos, eles começam a preencher os bancos do fundo. O que era um deserto de bancos vazios começa a se transformar em um espaço multicultural e multigeracional.
A cena atinge seu ápice quando o coral transita de um canto gregoriano tradicional para um arranjo explosivo de música pop adaptada.
Eles não apenas assistem; eles começam a bater palmas e a se mover no ritmo da música. A igreja deixa de ser um museu de silêncio para se tornar o centro da comunidade.
Essa cena é fundamental porque prova o ponto de Deloris: para salvar a paróquia, que corria o risco de ser fechada pelo Bispo por falta de fundos e fiéis, era preciso falar a língua do povo.
É nesse momento que a Madre Superiora percebe que, embora os métodos de Deloris sejam heterodoxos, eles trouxeram de volta a vida e a esperança para St. Katherine.
O que a descrição desta cena tem a ver com o atual momento do movimento espírita brasileiro, de maneira geral, e especialmente com relação à presença dos jovens nas casas espíritas?
Creio que o Movimento Espírita se encontra em uma encruzilhada histórica. Se, por um lado, a base doutrinária sistematizada por Allan Kardec no século XIX mantém-se atual em sua essência filosófica e científica, por outro, as estruturas organizacionais das casas espíritas enfrentam o desafio de dialogar com as gerações Z e Alpha.
As gerações atuais são marcadas pela hiperconectividade e pelo acesso instantâneo à informação. A Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e a Geração Alpha (pós-2010) possuem um perfil pragmático e um forte senso de justiça social.
Para esses jovens, o conhecimento não é algo a ser recebido passivamente de uma autoridade, mas construído coletivamente. Eles valorizam a transparência, a diversidade e a aplicabilidade prática dos conceitos aprendidos, rejeitando formalismos vazios ou dogmatismos velados – sim, apesar de não caber, o Espiritismo está cheio de dogmatismos.
Tradicionalmente, muitas casas espíritas operam sob um modelo hierárquico herdado das gerações Baby Boomer e X. Este modelo prioriza a palestra expositiva, onde o público assume um papel passivo, e cursos com currículos rígidos e lineares.
O funcionamento das novas mentes, no entanto, é em rede, não linear. Enquanto o centro busca a preservação de tradições e rituais de convivência, os jovens buscam agilidade, diálogo e uma linguagem que reflita os dilemas contemporâneos, como saúde mental, sustentabilidade e identidade.
A maior convergência entre a doutrina e as novas gerações reside na "fé raciocinada". O convite kardequiano ao questionamento e à análise científica atrai naturalmente o jovem que desconfia de dogmas – verdades absolutas, inquestionáveis, intocáveis.
Além disso, o foco na caridade e no auxílio ao próximo ressoa com o desejo de impacto social positivo dessas gerações. Eles, entretanto, querem mais. Desejam transformar o status quo. Querem implantar projetos sustentáveis de promoção social, de libertação do assistencialismo.
As divergências também surgem na forma do aprendizado espírita: a linguagem rebuscada, a resistência ao uso de tecnologias durante os estudos e o conservadorismo moral em temas sociais urgentes criam uma barreira que impede o sentimento de pertencimento.
Para acolher as novas gerações, o movimento espírita precisa transitar do modelo de transmissão bancária do conhecimento (vide Paulo Freire) para o modelo de participação. Isso implica a adoção de metodologias ativas, onde o estudo se dê por meio de debates, oficinas e produção de conteúdo digital.
É necessário que a casa espírita se torne um "espaço seguro" para o diálogo sobre questões da atualidade, sem julgamentos moralistas, mas com base na ética do Evangelho.
A digitalização do acolhimento e a inclusão do jovem nos processos de tomada de decisão das instituições são passos fundamentais para garantir a continuidade da mensagem espírita no futuro.
Se sempre ocorreu hiatos no choque de gerações em qualquer campo do saber, no desdobrar das épocas, o choque geracional em curso é mais profundo e radical.
Nunca as novas gerações estiveram tão sedentas de espiritualidade, sobretudo para fomentar as transformações que imagina introduzir na sociedade, mas o modelo clerical catolicista que foi adotado nos ambientes espiritistas impede a eclosão destas mudanças.
Quando será que abandonaremos os nossos mesmismos e adotaremos a nossa mudança de hábito?
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2013.
KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Brasília: FEB, 2013.
LIMA, Marcus Vinicius de. Espiritismo e Juventude: diálogos necessários. Rio de Janeiro: CELD, 2018.
PRENSKY, Marc. Nativos Digitais, Imigrantes Digitais. On the Horizon, MCB University Press, v. 9, n. 5, out.
TEIXEIRA, Raul. Desafios da Educação. Pelo Espírito Camilo. Niterói: 2001. Frázio, 2005.

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