20.8.26

Preparando-se para Voltar

A aceitação da finitude física é um dos maiores desafios da jornada humana. Em suas pesquisas com pacientes em estado terminal, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross mapeou cinco estágios emocionais característicos do processo de morrer, que servem como itinerário psíquico diante da impermanência do corpo.
O primeiro estágio é a negação, um mecanismo de defesa temporário no qual o indivíduo se recusa a aceitar a gravidade do diagnóstico, agindo como se a morte não fosse inevitável.
Em seguida, surge a raiva, marcada por sentimentos de revolta, inveja dos saudáveis e o questionamento sobre o porquê do sofrimento. superada essa fase, entra-se na barganha, um período de negociação — frequentemente com Deus ou com o destino — em que a pessoa promete mudanças de conduta em troca de mais tempo de vida.
Com a constatação da inevitabilidade do fim, manifesta-se a depressão, caracterizada por um profundo desligamento emocional, tristeza e o luto antecipado pelas perdas inevitáveis.
Por fim, alcança-se a aceitação, momento em que o indivíduo contempla o término da jornada com serenidade, sem desespero ou ressentimento, pronto para o encerramento do ciclo biológico.
Esta abordagem que antecede a morte física serve como pano de fundo para as pessoas não espiritualizadas. Aquelas que não veem perspectiva alguma fora da vivência na matéria ou que mesmo aceitando um porvir se comportam de maneira apegada às impressões da vida terrena.
O fato é que a morte do corpo físico não interrompe a vida, mas marca o início de uma nova etapa para o espírito imortal. A Filosofia Espírita detalha esse processo de transição em cinco fases sucessivas.
O desencarne é o desligamento dos laços fluídicos que unem o perispírito ao corpo biológico. Como ensina Allan Kardec, esse desligamento não é brusco, mas sim gradual, variando em tempo e facilidade conforme o grau de desapego material e a evolução moral do indivíduo.
Logo após o desligamento, sucede a perturbação, um estado de torpor e confusão mental no qual o espírito não compreende com clareza a sua nova condição. A duração desta fase depende diretamente do estado de consciência e dos apegos cultivados durante a vida terrena.
Superada a névoa inicial, o espírito entra na etapa de recuperação, sendo acolhido por benfeitores espirituais em postos de socorro ou colônias regeneradoras — como a colônia Nosso Lar, descrita por André Luiz. Nesse ambiente, ele recebe cuidados para reequilibrar suas energias e repousar do desgaste da enfermidade física.
Com o restabelecimento energético, ocorre a conscientização. O espírito toma plena lucidez de sua imortalidade, reconhece que o corpo físico era apenas uma vestimenta temporária e analisa, com clareza e sem julgamentos punitivos, as ações e escolhas da existência recém-concluída.
Por fim, dá-se a adaptação. O espírito integra-se à dinâmica do mundo espiritual, assumindo tarefas, estudos e aprendizados condizentes com o seu nível de maturidade moral, preparando-se ativamente para novas etapas do seu desenvolvimento.
Logicamente que estas etapas dizem respeito para as pessoas que possuem certo grau de amadurecimento espiritual. Muitas, maioria pode-se afirmar, não seguem este fluxo ou se ocorre é em períodos muitos longos, pois ficam retidas às lembranças da vivência carnal.
Há certa quantidade de espíritos – e não são poucas – que sequer percebem que desencarnaram e retornam ao corpo físico como se nunca houvesse saído dele.
Compreender a morte à luz da espiritualidade transforma radicalmente a postura do ser diante da existência.
A vida no corpo físico e a vida fora dele representam apenas duas faces da mesma moeda: a jornada contínua de evolução da alma.
Estar encarnado é mergulhar em uma oficina de aprendizado dinâmico.
O corpo material funciona como um abençoado instrumento de desaceleração e drenagem de imperfeições, onde os desafios cotidianos, as dores e os relacionamentos servem como ferramentas de burilamento moral.
Já a vida no plano espiritual representa o regresso à nossa pátria de origem, o momento de avaliar o aprendizado absorvido e planejar novas experiências.
Viver com a consciência de ser um espírito imortal na carne permite olhar para a impermanência do mundo material — a perda de bens, as mudanças de ciclos e a separação temporária dos entes queridos — não como tragédias, mas como dinâmicas naturais da escola terrestre.
A certeza da continuidade da vida traz leveza ao presente, ensinando que nada se perde e que cada experiência, por mais desafiadora que seja, é uma oportunidade valiosa de crescimento rumo à plenitude.
Esta é uma das razões que faz com que se afirme comumente que a Filosofia Espírita é libertadora de consciência à medida que tira o indivíduo da prisão existencial no corpo físico.
Lá ou aqui é certo afirmar que a Terra é uma escola e estamos todos matriculados na disciplina do progresso incessante na direção do nosso reencontro com a divindade que nos é inerente.
Carlos Pereira - blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno: ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. Tradução de Paulo Menezes. 10. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
XAVIER, Francisco Cândido; LUIZ, André (Espírito). Nosso Lar. 64. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2014.
XAVIER, Francisco Cândido; LUIZ, André (Espírito). O Obreiros da Vida Eterna. 36. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2011.

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