A intersecção entre religião e política nos Estados Unidos, intensificada pela ascensão de Donald Trump, apresenta um dos fenômenos socioculturais mais complexos do século XXI.
Para uma parcela significativa do eleitorado, Trump não é apenas um líder partidário, mas uma figura providencial destinada a restaurar valores perdidos.
Ao confrontarmos, no entanto, o "corpus" de suas falas, atos e estilo de liderança com o núcleo dos ensinamentos de Jesus de Nazaré — especificamente as Bem-Aventuranças e o Mandamento do Amor —, emerge uma tensão profunda e, por vezes, irreconciliável entre o "Reino" pregado pelo Cristo e o "Império" idealizado pelo trumpismo.
O Sermão da Montanha, registrado no Evangelho de Mateus, é amplamente considerado a "Constituição" do Reino de Deus. Nele, Jesus estabelece uma inversão radical das lógicas de poder do mundo antigo e moderno.
Enquanto as sociedades frequentemente exaltam a força, a riqueza e a autossuficiência, Jesus inicia seu discurso com uma série de bênçãos destinadas àqueles que o mundo despreza.
Donald Trump, por outro lado, construiu sua identidade pública e política sobre a premissa da vitória a qualquer custo, da força bruta e da retaliação implacável.
Onde Jesus afirma: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus 5:3), sugerindo a necessidade de reconhecer a própria insuficiência diante do divino, a retórica trumpista fundamenta-se em um hiper narcisismo.
Em diversas ocasiões, Trump afirmou categoricamente que apenas ele possuía a capacidade de "consertar" o sistema, uma postura que substitui a dependência espiritual pela autolatria da competência individual.
Essa dissonância se estende à virtude da mansidão.
Jesus ensina que "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra" (Mateus 5:5). A mansidão cristã não deve ser confundida com passividade, mas sim com a força sob controle e a recusa em usar a violência — física ou verbal — para dominar o outro.
A práxis de Trump é o oposto direto: o domínio pelo conflito.
O uso sistemático de apelidos pejorativos para adversários, a incitação à hostilidade em comícios e a visão de mundo onde o diálogo é sinal de fraqueza contrastam com a promessa de herança da terra pela temperança.
Para a lógica de Trump, a terra não é herdada pelos mansos, mas conquistada pelos "espertos" e pelos que exercem a pressão mais forte.
No campo da ética interpessoal, a questão da misericórdia e da retaliação cria um abismo ainda maior.
"Bem-aventurados os misericordiosos..." (Mateus 5:7) é uma máxima que propõe o perdão e a compaixão como pilares da convivência humana. Em contrapartida, um dos dogmas centrais do pensamento de Donald Trump é a lei do retorno amplificada.
Em sua filosofia de vida e negócios, a regra de ouro é: se alguém o ataca, deve-se atacar de volta "dez vezes mais forte".
Enquanto o Evangelho propõe o perdão das ofensas como forma de libertação, o trumpismo propõe o acerto de contas como ferramenta essencial de manutenção da imagem de "vencedor".
A análise torna-se ainda mais aguda ao considerarmos o Grande Mandamento de Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
A definição cristã de "próximo" é radicalmente inclusiva, como ilustrado na Parábola do Bom Samaritano, onde o "outro" — o estrangeiro ou o inimigo religioso — é quem deve ser acolhido e cuidado.
A política de Trump, sintetizada no lema "America First", estabelece uma hierarquia de valor que frequentemente desumaniza o estrangeiro em prol de um nacionalismo excludente.
Políticas como a separação de famílias na fronteira e uma retórica que descreve imigrantes como "invasores" que "envenenam o sangue do país" colidem frontalmente com a hospitalidade exigida por Jesus.
No "Evangelho de Trump", o próximo é apenas aquele que é leal à sua causa ou compartilha de sua identidade nacional; o dissidente ou o necessitado externo é visto meramente como um custo ou uma ameaça.
Mesmo a relação com a divindade sofre uma inversão.
O cristianismo exige a submissão do ego à vontade de Deus. O fenômeno do trumpismo, no entanto, muitas vezes instrumentaliza a religião para validar o ego nacional ou individual.
O gesto de segurar uma Bíblia em frente à Igreja de St. John em 2020, após o uso de força contra manifestantes, exemplifica o uso do símbolo sagrado como um artefato de poder político e coerção, e não como um guia de submissão espiritual.
Por fim, a bem-aventurança dos pacificadores — "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9) — parece não encontrar solo fértil na liderança de Trump.
Sua trajetória é intrinsecamente divisiva, prosperando na dicotomia do "nós contra eles". Ao atacar instituições democráticas e a imprensa, e ao flertar com retóricas que culminaram em eventos de violência como o do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, Trump distancia-se do ideal de pacificação social.
O "Evangelho de Donald Trump" apresenta-se como um evangelho de prosperidade, poder e proteção de identidade.
Ele ressoa com um arquétipo de "Messias Guerreiro" que muitos buscavam para lutar batalhas culturais no mundo secular.
Sob a ótica do Evangelho de Jesus, entretanto, percebe-se que Jesus propôs um caminho de esvaziamento, enquanto Trump propõe um caminho de exaltação.
Onde Jesus pede para oferecer a outra face, Trump exige o contra-ataque.
Onde Jesus pede para acolher o menor, Trump prioriza o muro.
Essa comparação revela que o apoio cristão a figuras com este perfil muitas vezes não se baseia na semelhança de caráter com o de Jesus, mas em uma aliança pragmática onde os valores do Sermão da Montanha são sacrificados no altar da conveniência política.
A ética de Jesus permanece como o que sempre foi: um escândalo para aqueles que buscam o poder terreno acima de tudo. E, neste sentido, vale a pena lembrar que era “inevitável que venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos." (Lucas 17:1-2)
Qual dos dois evangelhos você vai adotar como inspiração para a sua vida: o de Jesus de Nazaré ou o de Donald Trump?
Um alerta apenas: é impossivel servir simultaneamente a Deus e a Mamon...
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. (Contendo o Evangelho de Mateus, capítulos 5 a 7 – Sermão da Montanha).
CAMPBELL, W. Keith; MILLER, Joshua D. The Handbook of Narcissism and Narcissistic Personality Disorder: Theoretical Approaches, Empirical Findings, and Treatments. Hoboken: John Wiley & Sons, 2011.
KELLERMAN, Barbara. The End of Leadership. New York: HarperBusiness, 2012.
LOWEN, Alexander. Narcisismo: a negação do verdadeiro self. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1983.
MORAES, Gerson Leite de. O Evangelho segundo Donald Trump: a utilização da religião pela direita americana. In: Revista de Teologia e Cultura, Campinas, v. 12, n. 1, p. 45-62, jan./jun. 2021.
SCHARMER, Otto. Teoria U: como liderar a partir do futuro que emerge. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
STOTT, John. Contracultura cristã: a mensagem do Sermão do Monte. Tradução de Yolanda M. Krievin. São Paulo: ABU Editora, 1981.
TRUMP, Donald J.; SCHWARTZ, Tony. Trump: a arte da negociação. Tradução de Marcos José da Cunha. Rio de Janeiro: Alta Books, 2017.
Para uma parcela significativa do eleitorado, Trump não é apenas um líder partidário, mas uma figura providencial destinada a restaurar valores perdidos.
Ao confrontarmos, no entanto, o "corpus" de suas falas, atos e estilo de liderança com o núcleo dos ensinamentos de Jesus de Nazaré — especificamente as Bem-Aventuranças e o Mandamento do Amor —, emerge uma tensão profunda e, por vezes, irreconciliável entre o "Reino" pregado pelo Cristo e o "Império" idealizado pelo trumpismo.
O Sermão da Montanha, registrado no Evangelho de Mateus, é amplamente considerado a "Constituição" do Reino de Deus. Nele, Jesus estabelece uma inversão radical das lógicas de poder do mundo antigo e moderno.
Enquanto as sociedades frequentemente exaltam a força, a riqueza e a autossuficiência, Jesus inicia seu discurso com uma série de bênçãos destinadas àqueles que o mundo despreza.
Donald Trump, por outro lado, construiu sua identidade pública e política sobre a premissa da vitória a qualquer custo, da força bruta e da retaliação implacável.
Onde Jesus afirma: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mateus 5:3), sugerindo a necessidade de reconhecer a própria insuficiência diante do divino, a retórica trumpista fundamenta-se em um hiper narcisismo.
Em diversas ocasiões, Trump afirmou categoricamente que apenas ele possuía a capacidade de "consertar" o sistema, uma postura que substitui a dependência espiritual pela autolatria da competência individual.
Essa dissonância se estende à virtude da mansidão.
Jesus ensina que "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra" (Mateus 5:5). A mansidão cristã não deve ser confundida com passividade, mas sim com a força sob controle e a recusa em usar a violência — física ou verbal — para dominar o outro.
A práxis de Trump é o oposto direto: o domínio pelo conflito.
O uso sistemático de apelidos pejorativos para adversários, a incitação à hostilidade em comícios e a visão de mundo onde o diálogo é sinal de fraqueza contrastam com a promessa de herança da terra pela temperança.
Para a lógica de Trump, a terra não é herdada pelos mansos, mas conquistada pelos "espertos" e pelos que exercem a pressão mais forte.
No campo da ética interpessoal, a questão da misericórdia e da retaliação cria um abismo ainda maior.
"Bem-aventurados os misericordiosos..." (Mateus 5:7) é uma máxima que propõe o perdão e a compaixão como pilares da convivência humana. Em contrapartida, um dos dogmas centrais do pensamento de Donald Trump é a lei do retorno amplificada.
Em sua filosofia de vida e negócios, a regra de ouro é: se alguém o ataca, deve-se atacar de volta "dez vezes mais forte".
Enquanto o Evangelho propõe o perdão das ofensas como forma de libertação, o trumpismo propõe o acerto de contas como ferramenta essencial de manutenção da imagem de "vencedor".
A análise torna-se ainda mais aguda ao considerarmos o Grande Mandamento de Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
A definição cristã de "próximo" é radicalmente inclusiva, como ilustrado na Parábola do Bom Samaritano, onde o "outro" — o estrangeiro ou o inimigo religioso — é quem deve ser acolhido e cuidado.
A política de Trump, sintetizada no lema "America First", estabelece uma hierarquia de valor que frequentemente desumaniza o estrangeiro em prol de um nacionalismo excludente.
Políticas como a separação de famílias na fronteira e uma retórica que descreve imigrantes como "invasores" que "envenenam o sangue do país" colidem frontalmente com a hospitalidade exigida por Jesus.
No "Evangelho de Trump", o próximo é apenas aquele que é leal à sua causa ou compartilha de sua identidade nacional; o dissidente ou o necessitado externo é visto meramente como um custo ou uma ameaça.
Mesmo a relação com a divindade sofre uma inversão.
O cristianismo exige a submissão do ego à vontade de Deus. O fenômeno do trumpismo, no entanto, muitas vezes instrumentaliza a religião para validar o ego nacional ou individual.
O gesto de segurar uma Bíblia em frente à Igreja de St. John em 2020, após o uso de força contra manifestantes, exemplifica o uso do símbolo sagrado como um artefato de poder político e coerção, e não como um guia de submissão espiritual.
Por fim, a bem-aventurança dos pacificadores — "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9) — parece não encontrar solo fértil na liderança de Trump.
Sua trajetória é intrinsecamente divisiva, prosperando na dicotomia do "nós contra eles". Ao atacar instituições democráticas e a imprensa, e ao flertar com retóricas que culminaram em eventos de violência como o do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, Trump distancia-se do ideal de pacificação social.
O "Evangelho de Donald Trump" apresenta-se como um evangelho de prosperidade, poder e proteção de identidade.
Ele ressoa com um arquétipo de "Messias Guerreiro" que muitos buscavam para lutar batalhas culturais no mundo secular.
Sob a ótica do Evangelho de Jesus, entretanto, percebe-se que Jesus propôs um caminho de esvaziamento, enquanto Trump propõe um caminho de exaltação.
Onde Jesus pede para oferecer a outra face, Trump exige o contra-ataque.
Onde Jesus pede para acolher o menor, Trump prioriza o muro.
Essa comparação revela que o apoio cristão a figuras com este perfil muitas vezes não se baseia na semelhança de caráter com o de Jesus, mas em uma aliança pragmática onde os valores do Sermão da Montanha são sacrificados no altar da conveniência política.
A ética de Jesus permanece como o que sempre foi: um escândalo para aqueles que buscam o poder terreno acima de tudo. E, neste sentido, vale a pena lembrar que era “inevitável que venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos." (Lucas 17:1-2)
Qual dos dois evangelhos você vai adotar como inspiração para a sua vida: o de Jesus de Nazaré ou o de Donald Trump?
Um alerta apenas: é impossivel servir simultaneamente a Deus e a Mamon...
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. (Contendo o Evangelho de Mateus, capítulos 5 a 7 – Sermão da Montanha).
CAMPBELL, W. Keith; MILLER, Joshua D. The Handbook of Narcissism and Narcissistic Personality Disorder: Theoretical Approaches, Empirical Findings, and Treatments. Hoboken: John Wiley & Sons, 2011.
KELLERMAN, Barbara. The End of Leadership. New York: HarperBusiness, 2012.
LOWEN, Alexander. Narcisismo: a negação do verdadeiro self. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1983.
MORAES, Gerson Leite de. O Evangelho segundo Donald Trump: a utilização da religião pela direita americana. In: Revista de Teologia e Cultura, Campinas, v. 12, n. 1, p. 45-62, jan./jun. 2021.
SCHARMER, Otto. Teoria U: como liderar a partir do futuro que emerge. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
STOTT, John. Contracultura cristã: a mensagem do Sermão do Monte. Tradução de Yolanda M. Krievin. São Paulo: ABU Editora, 1981.
TRUMP, Donald J.; SCHWARTZ, Tony. Trump: a arte da negociação. Tradução de Marcos José da Cunha. Rio de Janeiro: Alta Books, 2017.
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