O filme A Empregada, baseado no best-seller de Freida McFadden, estabelece-se como um thriller psicológico claustrofóbico que utiliza o ambiente doméstico como um tabuleiro de xadrez emocional.
A trama acompanha Millie, uma mulher em busca de recomeço após passagens pelo sistema judiciário, que aceita trabalhar como empregada doméstica para a abastada família Winchester.
O cenário é a personificação do sonho americano: uma mansão impecável habitada por Andrew Winchester, um marido atencioso e bem-sucedido, e Nina Winchester, uma esposa cuja instabilidade emocional e comportamentos erráticos parecem tornar a vida de Andrew um fardo heroico.
A arquitetura da casa — com seu quarto no sótão que tranca apenas pelo lado de fora — serve como metáfora para a dinâmica de poder ali estabelecida.
Enquanto Millie tenta navegar pelos abusos psicológicos e pelas exigências contraditórias de Nina, ela é atraída pela figura de Andrew, que se projeta como a única âncora de sanidade naquele ambiente.
O que a narrativa propõe, entretanto, é um mergulho nas camadas da manipulação, onde a perfeição de Andrew não é um traço de caráter, mas uma armadura narcisista meticulosamente construída para ocultar uma psique predatória.
Andrew Winchester é o tipo característico do Narcisismo Grandioso. O narcisista não é apenas alguém com "muita autoestima", mas alguém que utiliza as relações interpessoais para regular seu próprio ego.
Andrew é o mestre da extroversão e do charme superficial. Ele se apresenta como o "salvador" — tanto de Nina, a quem ele supostamente protege de suas próprias crises, quanto de Millie, a quem ele oferece uma oportunidade de emprego quando ninguém mais o faria.
Essa necessidade de ser visto como moralmente superior e protetor representa a busca por suprimento narcisista.
Andrew não busca conexão real; ele busca admiração e controle. Quando o controle sobre Nina começa a vacilar ou quando ele precisa de uma nova fonte de validação, ele utiliza o gaslighting para desestabilizar a percepção da realidade das mulheres ao seu redor.
O comportamento de Andrew é funcional: ele manipula o ambiente para que todos se sintam dependentes de sua aprovação, garantindo que ele permaneça no topo da hierarquia de status daquela micro sociedade doméstica.
Se mergulhalharmos na estrutura psíquica profunda diríamos que o narcisista sofre de uma incapacidade de relacionar-se com o "Self" (o centro da totalidade psíquica).
Andrew Winchester vive inteiramente identificado com sua Persona — o papel social de marido perfeito. Ele não tem um mundo interior rico; ele tem apenas uma imagem a manter.
O narcisista, na realidade, projeta sua própria Sombra (seus impulsos sombrios, sua raiva e sua fraqueza) nos outros.
No filme, Andrew projeta toda a sua malícia e instabilidade em Nina. Ao fazer o mundo acreditar que Nina é a "louca", Andrew consegue manter sua imagem de pureza.
Esse comportamento seria a "fome narcisista": a necessidade de devorar a identidade do outro para preencher o próprio vazio existencial.
Andrew não vê Millie ou Nina como seres independentes, mas como "objetos" que devem refletir sua própria glória. Se o espelho (a mulher) se quebra ou deixa de refletir o que ele deseja, ele se torna cruel, até porque o "Ego inflado" que não tolera a frustração.
A tensão do filme atinge seu ápice quando percebemos que a "bondade" de Andrew é a forma mais refinada de abuso.
A transformação de caráter de Andrew é quase impossível, pois ele carece de empatia genuína. Ele opera em um sistema de soma zero: para que ele se sinta poderoso, as mulheres em sua vida devem se sentir pequenas, culpadas e desorientadas.
O quarto do sótão é o símbolo máximo desse narcisismo maligno. Representa o lugar onde ele isola a realidade para que possa ditar as regras.
Esta é a estratégia de manutenção de poder através do isolamento, uma tentativa do narcisista de aprisionar o outro em sua própria psique doente, impedindo que a vítima tenha qualquer visão externa que possa desmascarar a fraude do abusador.
Andrew Winchester revela um homem que é prisioneiro de sua própria grandiosidade. Sua patologia é uma ferramenta de sobrevivência social que lhe permite navegar por espaços de prestígio enquanto destrói vidas de forma privada. Andrew é incapaz de transformação porque não reconhece seu próprio vazio.
Andrew Winchester não é um vilão de thriller comum; ele é um estudo de caso sobre como o narcisismo pode ser letal quando disfarçado de virtude.
O filme nos deixa com uma lição sombria: em uma casa governada por um narcisista, a única forma de sobrevivência não é a compreensão ou o amor, mas a ruptura total com o espelho distorcido que ele oferece.
A "Empregada" não é apenas alguém que limpa a casa, mas aquela que acaba por remover os escombros de uma fachada que escondia um abismo psicológico.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
CAMPBELL, W. Keith; CRIST, Carolyn. A nova ciência do narcisismo: entenda um dos maiores desafios do nosso tempo e aprenda a criar relacionamentos mais saudáveis. Tradução de Marcello Borges. 1. ed. Rio de Janeiro: Alta Life, 2020.
SCHWARTZ-SALANT, Nathan. Narcisismo e transformação de caráter: a psicologia das crises de narcisismo. Tradução de Maria Silvia Mourão Netto. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
Trailer do filme>>> https://youtu.be/lgWy4oVTZTk
A trama acompanha Millie, uma mulher em busca de recomeço após passagens pelo sistema judiciário, que aceita trabalhar como empregada doméstica para a abastada família Winchester.
O cenário é a personificação do sonho americano: uma mansão impecável habitada por Andrew Winchester, um marido atencioso e bem-sucedido, e Nina Winchester, uma esposa cuja instabilidade emocional e comportamentos erráticos parecem tornar a vida de Andrew um fardo heroico.
A arquitetura da casa — com seu quarto no sótão que tranca apenas pelo lado de fora — serve como metáfora para a dinâmica de poder ali estabelecida.
Enquanto Millie tenta navegar pelos abusos psicológicos e pelas exigências contraditórias de Nina, ela é atraída pela figura de Andrew, que se projeta como a única âncora de sanidade naquele ambiente.
O que a narrativa propõe, entretanto, é um mergulho nas camadas da manipulação, onde a perfeição de Andrew não é um traço de caráter, mas uma armadura narcisista meticulosamente construída para ocultar uma psique predatória.
Andrew Winchester é o tipo característico do Narcisismo Grandioso. O narcisista não é apenas alguém com "muita autoestima", mas alguém que utiliza as relações interpessoais para regular seu próprio ego.
Andrew é o mestre da extroversão e do charme superficial. Ele se apresenta como o "salvador" — tanto de Nina, a quem ele supostamente protege de suas próprias crises, quanto de Millie, a quem ele oferece uma oportunidade de emprego quando ninguém mais o faria.
Essa necessidade de ser visto como moralmente superior e protetor representa a busca por suprimento narcisista.
Andrew não busca conexão real; ele busca admiração e controle. Quando o controle sobre Nina começa a vacilar ou quando ele precisa de uma nova fonte de validação, ele utiliza o gaslighting para desestabilizar a percepção da realidade das mulheres ao seu redor.
O comportamento de Andrew é funcional: ele manipula o ambiente para que todos se sintam dependentes de sua aprovação, garantindo que ele permaneça no topo da hierarquia de status daquela micro sociedade doméstica.
Se mergulhalharmos na estrutura psíquica profunda diríamos que o narcisista sofre de uma incapacidade de relacionar-se com o "Self" (o centro da totalidade psíquica).
Andrew Winchester vive inteiramente identificado com sua Persona — o papel social de marido perfeito. Ele não tem um mundo interior rico; ele tem apenas uma imagem a manter.
O narcisista, na realidade, projeta sua própria Sombra (seus impulsos sombrios, sua raiva e sua fraqueza) nos outros.
No filme, Andrew projeta toda a sua malícia e instabilidade em Nina. Ao fazer o mundo acreditar que Nina é a "louca", Andrew consegue manter sua imagem de pureza.
Esse comportamento seria a "fome narcisista": a necessidade de devorar a identidade do outro para preencher o próprio vazio existencial.
Andrew não vê Millie ou Nina como seres independentes, mas como "objetos" que devem refletir sua própria glória. Se o espelho (a mulher) se quebra ou deixa de refletir o que ele deseja, ele se torna cruel, até porque o "Ego inflado" que não tolera a frustração.
A tensão do filme atinge seu ápice quando percebemos que a "bondade" de Andrew é a forma mais refinada de abuso.
A transformação de caráter de Andrew é quase impossível, pois ele carece de empatia genuína. Ele opera em um sistema de soma zero: para que ele se sinta poderoso, as mulheres em sua vida devem se sentir pequenas, culpadas e desorientadas.
O quarto do sótão é o símbolo máximo desse narcisismo maligno. Representa o lugar onde ele isola a realidade para que possa ditar as regras.
Esta é a estratégia de manutenção de poder através do isolamento, uma tentativa do narcisista de aprisionar o outro em sua própria psique doente, impedindo que a vítima tenha qualquer visão externa que possa desmascarar a fraude do abusador.
Andrew Winchester revela um homem que é prisioneiro de sua própria grandiosidade. Sua patologia é uma ferramenta de sobrevivência social que lhe permite navegar por espaços de prestígio enquanto destrói vidas de forma privada. Andrew é incapaz de transformação porque não reconhece seu próprio vazio.
Andrew Winchester não é um vilão de thriller comum; ele é um estudo de caso sobre como o narcisismo pode ser letal quando disfarçado de virtude.
O filme nos deixa com uma lição sombria: em uma casa governada por um narcisista, a única forma de sobrevivência não é a compreensão ou o amor, mas a ruptura total com o espelho distorcido que ele oferece.
A "Empregada" não é apenas alguém que limpa a casa, mas aquela que acaba por remover os escombros de uma fachada que escondia um abismo psicológico.
Carlos Pereira - Blog de Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
CAMPBELL, W. Keith; CRIST, Carolyn. A nova ciência do narcisismo: entenda um dos maiores desafios do nosso tempo e aprenda a criar relacionamentos mais saudáveis. Tradução de Marcello Borges. 1. ed. Rio de Janeiro: Alta Life, 2020.
SCHWARTZ-SALANT, Nathan. Narcisismo e transformação de caráter: a psicologia das crises de narcisismo. Tradução de Maria Silvia Mourão Netto. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
Trailer do filme>>> https://youtu.be/lgWy4oVTZTk
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