AUGUSTO Carvalho Rodrigues DOS ANJOS *
Noite. Retorne À Terra. Entre os aflitos
Que a luta impele aos últimos degraus,
Sinto a perturbação que envolve o caos
10 E a exalação de todos os detritos.
Entre o mundo e meu pranto, a sós, vagueio,
Na torva indagação que me constringe.
A vida é aterradora e imensa esfinge
No horror que me tortura de permeio.
Ao coro estranho de sinistros ventos,
Ergue-se a angústia num milhão de vozes...
Do choro mudo a imprecações ferozes,
Há turbilhões de trágicos lamentos.
Paixões embatem com medonha fúria.
O fel da provação verte sem peias...
O homem é como alguém que abrindo as veias
Tenta fugir debalde à carne espúria.
Em toda a parte, a dor comprime o cerco,
E os que dormem, quais míseros cativos,
Assemelham-se a tristes morto-vivos,
Agonizando em túmulos de esterco.
Acorrentada entre os horrendos muros
Dos seus próprios grilhões imanifestos,
A Humanidade escuta os vãos protestos
Dos sonhos que morreram nascituros...
Mas, dissipando a sombra por rompê-la,
Na gleba que de lodo se engalana,
Como sinal de Deus na furna humana,
28 Surge sublime e resplendente estrela.
Há nova luz de amor que tudo invade.
E percebo, no pântano entrevisto,
Que a redenção virá, brilhando em Cristo,
Ante o Divino Sol da caridade.
(*) Bacharelando-se em Direito, na cidade do Recife, três anos depois transfere-se Augusto dos Anjos para o Rio de Janeiro, onde permanece por dois anos, lecionando na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Muda-se posteriormente para Leopoldina, Minas, tornando-se abnegado diretor do Grupo Escolar “Ribeiro Junqueira”, até à desencarnação. Cognominado o “Poeta da Morte” por Antônio Torres, emparelha-se com Antero Quental, como sendo poeta filósofo do mais alto nível. Os temas científicos encontraram em AA “o seu grande explorador”, segundo a expressão usada por Darcy Damasceno (In A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág. 388). Apesar do pessimismo empedernido do poeta paraibano, salienta Fernando Góes (Pan., V, pág.64) que “ em muitos passos de sua obra áspera e amarga há traços de um grande espiritualismo”. (Engenhos Pau d’Arco, perto da Vila do Espírito Santo, Paraíba, 20 de Abril de 1884 – Leopoldina, Minas Gerais, 12 de Novembro de 1914.)
BIBLIOGRAFIA: eu; eu e outras poesias.
4. Observa-se a semelhança desta estância com a primeira de “As Cismas do Destino” (Eu e Outras Poesias, pág. 67), que vamos transcrever na íntegra:
“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no destino e tinha medo!”
28. Atente-se na aliteração em s.
61. Ei-lo, o doente... Cf. a nota 3-4, pág.110.
A respeito do metro deste verso em que a 6ª sílaba tônica recai no que cf. o 1º verso do soneto “Solitário”: “Como um fantasma que se refugia”; o 10º verso de “O Lamento das Coisas”: “Da transcendência que se não realiza...”, etc.
70-71. horrenda – hirta. Não raro, freqüentavam o vocabulário do poeta estas palavras. Cf. “Os Doentes” – VII, VIII e IX; “ Noite de visionário”; “Apóstrofe à Carne”; “Louvor à Unidade”; etc.
73. Aposiopese: “E’ o parto novo...”
76. abdômen: “ a rima abdômen é, do ponto de vista orto-épico, camônico, imperfeita. Mas em verdade revela que, embora requintado em muitos aspectos de sua pronúncia, Augusto do Anjos se deixaria levar de certas tendências populares. A pronúncia canônica, aliás, de abdômen é práticamente inexistente, salvo nas situações tensas de cátedra, oratório ou teatro culto requintado.” (Nota de Antônio Houaiss – N. Cl., nº. 46, da pág. 21.)
82. E’ ainda de M. Cavalcanti Proença que vamos citar uma estatística: “No Monólogo de uma sombra, de Augusto dos Anjos, 55 entre 186 decassílabos (30%) são acentuados na 6ª sílaba, que é a tônica do proparoxítono.” (Ritmos e Poesias, Págs. 80-81.) Nos 88 decassílabos que ora estudamos, o poeta, que por este ritmo tem acentuado parentesco com Cesário Verde, ostentou 16 vocábulos proparoxítonas acentuados na 6ª sílaba (18%).
Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira
Noite. Retorne À Terra. Entre os aflitos
Que a luta impele aos últimos degraus,
Sinto a perturbação que envolve o caos
10 E a exalação de todos os detritos.
Entre o mundo e meu pranto, a sós, vagueio,
Na torva indagação que me constringe.
A vida é aterradora e imensa esfinge
No horror que me tortura de permeio.
Ao coro estranho de sinistros ventos,
Ergue-se a angústia num milhão de vozes...
Do choro mudo a imprecações ferozes,
Há turbilhões de trágicos lamentos.
Paixões embatem com medonha fúria.
O fel da provação verte sem peias...
O homem é como alguém que abrindo as veias
Tenta fugir debalde à carne espúria.
Em toda a parte, a dor comprime o cerco,
E os que dormem, quais míseros cativos,
Assemelham-se a tristes morto-vivos,
Agonizando em túmulos de esterco.
Acorrentada entre os horrendos muros
Dos seus próprios grilhões imanifestos,
A Humanidade escuta os vãos protestos
Dos sonhos que morreram nascituros...
Mas, dissipando a sombra por rompê-la,
Na gleba que de lodo se engalana,
Como sinal de Deus na furna humana,
28 Surge sublime e resplendente estrela.
Há nova luz de amor que tudo invade.
E percebo, no pântano entrevisto,
Que a redenção virá, brilhando em Cristo,
Ante o Divino Sol da caridade.
(*) Bacharelando-se em Direito, na cidade do Recife, três anos depois transfere-se Augusto dos Anjos para o Rio de Janeiro, onde permanece por dois anos, lecionando na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Muda-se posteriormente para Leopoldina, Minas, tornando-se abnegado diretor do Grupo Escolar “Ribeiro Junqueira”, até à desencarnação. Cognominado o “Poeta da Morte” por Antônio Torres, emparelha-se com Antero Quental, como sendo poeta filósofo do mais alto nível. Os temas científicos encontraram em AA “o seu grande explorador”, segundo a expressão usada por Darcy Damasceno (In A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág. 388). Apesar do pessimismo empedernido do poeta paraibano, salienta Fernando Góes (Pan., V, pág.64) que “ em muitos passos de sua obra áspera e amarga há traços de um grande espiritualismo”. (Engenhos Pau d’Arco, perto da Vila do Espírito Santo, Paraíba, 20 de Abril de 1884 – Leopoldina, Minas Gerais, 12 de Novembro de 1914.)
BIBLIOGRAFIA: eu; eu e outras poesias.
4. Observa-se a semelhança desta estância com a primeira de “As Cismas do Destino” (Eu e Outras Poesias, pág. 67), que vamos transcrever na íntegra:
“Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no destino e tinha medo!”
28. Atente-se na aliteração em s.
61. Ei-lo, o doente... Cf. a nota 3-4, pág.110.
A respeito do metro deste verso em que a 6ª sílaba tônica recai no que cf. o 1º verso do soneto “Solitário”: “Como um fantasma que se refugia”; o 10º verso de “O Lamento das Coisas”: “Da transcendência que se não realiza...”, etc.
70-71. horrenda – hirta. Não raro, freqüentavam o vocabulário do poeta estas palavras. Cf. “Os Doentes” – VII, VIII e IX; “ Noite de visionário”; “Apóstrofe à Carne”; “Louvor à Unidade”; etc.
73. Aposiopese: “E’ o parto novo...”
76. abdômen: “ a rima abdômen é, do ponto de vista orto-épico, camônico, imperfeita. Mas em verdade revela que, embora requintado em muitos aspectos de sua pronúncia, Augusto do Anjos se deixaria levar de certas tendências populares. A pronúncia canônica, aliás, de abdômen é práticamente inexistente, salvo nas situações tensas de cátedra, oratório ou teatro culto requintado.” (Nota de Antônio Houaiss – N. Cl., nº. 46, da pág. 21.)
82. E’ ainda de M. Cavalcanti Proença que vamos citar uma estatística: “No Monólogo de uma sombra, de Augusto dos Anjos, 55 entre 186 decassílabos (30%) são acentuados na 6ª sílaba, que é a tônica do proparoxítono.” (Ritmos e Poesias, Págs. 80-81.) Nos 88 decassílabos que ora estudamos, o poeta, que por este ritmo tem acentuado parentesco com Cesário Verde, ostentou 16 vocábulos proparoxítonas acentuados na 6ª sílaba (18%).
Livro: “Antologia dos Imortais” - Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira
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